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Sin titulo,  2008, Acrílico sobre tabla 25cm x 12cm
José Trobo, (cortesía del artista)

 


alíngua

Regina Moran
a na lista de espera, Campinas

Eu quando muito criança falava a língua do p.
Eu quando menos criança falava a língua do p duplo.
Quando eu cresci aprendi outras línguas.
Mas há uma língua que Eu mais que tudo, sem saber que existia, desejava falar.
Mas a maior surpresa foi aprender que a alínguasó não se ensina.
Esta língua que se ensina é a língua que só se aprende com Outro escutando.
Quando então aconteceu que eu me escutei escutada, descobri no ato a minha alíngua ...
 Que de tudo revela, o de melhor e o de pior que a Rê vela.
Até então para mim sem nome, em puro estado de coação.
Esta língua  que foi penetrando pouco a pouco nos meus ouvidos moucos.
Eu  falada nesta escutada por ouvidos aguçados.
Escutada  afiada, afilada,atilada, atenta, alerta, apurada...
Fala fiada, tilada, atentada, alertada, apurada, a celerada.
Para Eu falar nesta língua só com escutada, ou ela vai à míngua.
É a alíngua que o a funda para que eu não afunde.
É a alíngua que o a risca e não deixa riscar.
Assim eu não me arrisco a viver sem a e risco e não risco o a da minha vida.
Risco com a minha letra, não risco com o corte que só é próprio no A.
É a alíngua que a talha para que não busque atalhos.
Atalhos a dentro dos abismos de que não posso sair e nos quais não posso ficar.
É a alíngua que a tinge os tecidos do corpo que não mente.
É a alíngua que a tenta a aproximar sem achego possível.
Um atentado, e eu frustrada, numa falta danada de nunca chegar lá, que não há.
É a alíngua que a bole para eu ter meu a abolido que nesta abolição há perda.
Perda por passar a circular por concessão a cada um de com a bordar.
Perda por passar a circular por concessão a cada um de com a moldar.
Enfim, uma circulação por concessão a cada um de abortar.
Eu apostei todo meu capital, eu apostei porque estava a adernar.
Pois quando meu a aderna e eu arrisco de me afogar meu risco é a postar.
 E foi falando a alíngua, para sair do rebolo que me Rê tinha...
Eu no trabalho da reforma, eu no repõe que remolda o que retira e já retarda...
Eu na renúncia de renega a refrega me retiro.
É a alíngua que também revela o a Mor.
E eu de alienada para o eu e Eu aliadas a final.
Há final? Não, é o reinício do a.
É a alíngua com a qual eu não paro de Me escrever.
E eu arretada arreto na volta ao meu a.
É a alíngua que Me revela meu ser a apressar.
Que pressa sem a é um verdadeiro a prensar.
E meu peito, assim apertado, fica a partido  e eu apartada.
Esse a no lugar de gerúndio do não a, é meu a apressar um a...
Eu me digo e lhe repito só há vendo...
Um  a que não tem pressa...
Se há a pressa é o que não tem a.
O a é mais que nada, faz interface com tudo, é lá onde não há descanso.
De onde não há saída. E por desvio do geral da regra, aonde ainda assim se quer ficar.
Mas, aonde! Se no a não se chega nem com  a alíngua, mesmo que eu não pare de falar...
Antecede, concede, sucede a dupla inseparável do fala a  para Outro escuta a.
Por isto mesmo é que eu lhe falo.
Este tal há e tem dado o que falar é o de Lacan e escrito é a.

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