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temas clave: psicoanálisis Lacan política pensamiento revista digital


Serie "El grito", Técnica mixta sobre papel encerado, Medidas 50 x 34,5 cms. Año 2004
Juan Yagüe (cortesía del artista)

 


Regina Célia C.P. Moran.
Pisiconalista
Associação Campinense de Psicanálise

Outrada

Eu e a parte que me cabe nas touradas.

Na platéia, como parte da quadrilha, e Eu no rejoneo do Outro.

A tourada que evolui em terços, na reza, entre eles,  primeiro o capote, depois a troca  por muletas.

Levo o capote? Dou? Agito?

E as muletas?

Ataco, me apóio?

Respondendo ao crescente fazer-se presença do touro, o eu a agitar o capote ao Outro. O touro  tão primitivo. O quê lhe garante a sobrevivência? De tão arcaico o imaginava extinto.

Não fosse pelo gozo da luta: eu no controle do capote, Eu me dando a chance de ser mais uma vez vencida, investir, arremessar-me da angústia em pura

desordem agitada, eu a enfrentá-la com a posse do capote numa negaça controlada; nele  toda escrita gravada no fogo do ferro que marca. 

O fogo reavivado, tingida no bufar do Eu ao agito da vermelhidão.  

Como um touro, no gozo, Eu sou irremediavelmente toureada.

Sem braveza, sem oferecer perigo, o touro é boi. Se a loucura é mansa, não tem espetáculo. O que fazer da loucura mansa? Colocar-lhe cangas? A loucura brava é a minha marca de humanidade, se louca for, brava! Amansar o coração? Mansa e humilde de coração? Só saindo da loucura.

Desde que tudo se passe com permissão da autoridade: Caso não haja impedimento do tempo, e promete que os touros serão picados, bandarilhados e mortos à estocada.

Têm que dar muito jogo, os que não dão, ou serão inutilizados durante a lida, ou são retirados ao curral.

Têm vergonha da vergonha, a corrida é no enfrentamento de uma vergonha: a de fazer feio.

Nada sabe do toureiro. Age como se tudo soubesse, não aceita o capote, investe na muleta. Sobre-determina o espetáculo.

 O Touro de si conta com suas toneladas de fúria, sua força, sua determinação, sua braveza, sua impulsividade no arremessar-se, sua marca: é indomável, não é domesticável. Impostura ir nesta intenção, o Outro morre Touro, não trabalhará ao seu serviço!

Este eu toureiro, este sim, só o é, apertado em seus brocados de fêmea, com sua sapatilha negra e meias em tom de rosa, que do chapéu à espada exibe a coragem do macho, conta estar ali  pronto para matar, no risco tão real e denegado de morrer.           

Na sua negaça, todo cinturado, depois de licenciar-se toureador, necessita enfrentar touros cada vez mais bravos, e ter o reconhecimento da platéia. São todos os touros, digo, outros, que acenam ou não seus lenços, para uma manifestação que reflete seus sentimentos, diante do espetáculo (sempre segundo regras e regulamentos).

Então, todo este movimento do Outro, é ou não, acolhido  pela Presidência, que lhe autorizara os touros e lhe autorizará ou não  a premiação. Não é à toa que os prêmios são na ordem: uma orelha, duas orelhas e o máximo o rabo!  Que não se confundam, do touro.

Que festa é esta?

Esta repetição da repetição, três toureiros, seis touros, ordem de antiguidade. Chance de não repetir o mesmo, garantida a chance de repetição, que os touros bravos são imprevisíveis, até eles têm seus dias calmos. Dias em que estão mais imunes a responder à provocação.

Quem são estes com quais a toureira conta?

Cada um tem sua quadrilha: dois da lei, pedem a chave da porta dos touros. Para soltar os touros é preciso que  de dentro da quadrilha, dois da lei, passem pela anuência da Presidência, então a chave é entregue.

Os picadores, são dois, mas só um executa.

O picador que conduz o cavalo cegado, mostra sua habilidade de cavaleiro, dispensa a lida. Como senhor, como nobre, que abriu mão para o escravo travar sua batalha a pé.

Esta ferida que não pode ser mortal, faz  transbordar em desordem, numa reação na direção da espontaneidade, a braveza do touro.

No jorro do seu sangue, toda sua dor de miúra é evocada, os maus tratos do manejo.

Cabe aos toureiros de prata,  três, a fincar-lhe as banderilhas, aos pares,  aumentar seu sangramento, mantendo seu  enfezamento ...

Os toureiros aspirantes, os lidadores, aos quais se garante o direito de estarem entre as barreiras. Protegem-se nestas defesas, sem vergonha, apenas na função de aquecer, participam do espetáculo.

Neste suporte do outro, não correm, estão abaixo do toureiro. Só acirram o Outro para um Eu que olham, reconhecem, invejam.

Este sim, demonstra sua coragem a cada estocada, nos desvios flexíveis de uma lateralidade, de giros, que o touro não acompanha, e o toureiro ali, rente, o sabe.

Resta-lhe pouco tempo mais em fúria e o golpe final fica travestido de misericórdia, depois de sagrado; só o que resta é ser abatido para um fim, entre muitos.  

A arena, o redondel, será regada entre corridas, assim garantindo a repetição, fresca e de outro espetáculo, a repetição não é do mesmo?

Mas afinal sendo o touro e o toureiro, a divisão inexorável, o que de melhor pode resultar?

Proibindo o espetáculo? Não se iluda ele será encenado na clandestinidade.

Parando de criar miúras? Meu Deus! Desemprego total! Fortunas no nadir de suas derrocadas financeiras. Ademais é um símbolo insubstituível, pilar cultural, sem ele, desabamento certo.

O toureiro? É nascido o toureiro: as mães choram, mas assim os procriam e assim os desejam. É um destino inexorável, ser toureiro ou o nada. É vedado subtrair este gozo de todos os lados: do touro, do toureiro, dos ancestrais toureados, toureadores, cria-dores, forma-dores, enfim todo o mundo que circo-ula em torno deste culminante e repetitivo espetáculo.

A platéia? Espera pela repetição do espetáculo! A temporada das touradas. Não haver platéia? Só dizimando, e ela brotará de novo, será substituída com paixão, por todos seus correlatos.

Implodir o estádio? A improvisação irá possibilitá-lo de imediato.

E a tr-adição? Quê então?

O corte à to-irada.

A falta da tourada!

Chega, basta de adict-atração!

Como? O devir do miúra. O miúra também terá seu saber, saberá o saber do Outro. O miúra é desejo do criador, do toureiro, da platéia, e assim engessado neste lugar, lhe cabe sustentar o espetáculo.

E no devir dos miúra, o touro muda de lugar, como?

Os miúras reconhecem o fabrico do pano vermelho, cada fio, cada tom, e perdem o interesse em reinvestir  nas marcas que o Outro lhe agita, reconhece-se no Touro.

Este concentrado de recalque que abriga toneladas de fúria, antecedentes de dor, manchas sangrentas, acolher-se-á. Reconhecendo o toureiro, não responderá à sua demanda, desenlaçado e desembaraçado do seu desejo.

O picador e os provocadores ficarão sem função, a platéia não gozará na falta de sua fúria.

O touro suportará sem braveza e com bravura a inicial estranheza do toureiro, as vaias da platéia, o medo da sumária execução. Não há espetáculo nesta morte antecipada. É o fim para muitos gozos.

Então,  renunciando ao vermelho morto da tourada,  ao vermelho tingindo seu gozo do gozo do Outro; pastarão orgulhosamente o verde vivo do seu próprio desejo, desejo de outra coisa, desejo de novo.

Declarando morte à vergonha e à vergonha da vergonha,

não reconhecerão merecimento em qualquer outra morte,

tampouco naquela que era o porquê de suas vidas.

Então, pastarão orgulhosamente, não cairão nas outradas; e, com tal bravura que: nem as vaias, nem os algozes se mobilizarem, nem a continuação do espetáculo, nada trará os Me-urras de volta.Tudo isto aos miúras faltará. O rescaldo é a marca de estar fora, e descobrir: afinal a que se avia no devir do EU?

É o fim de uma touro-mania. Ao  topar com toureiros, e  assumir o  lugar de  um outro me-urra. Efeito fatal de ser o desejo do Outro, desejar ser o desejo do Outro, desejar ser objeto de desejo do Outro, não-ser! Isto foi para mim: tomar um lugar de touro e transformar a minha vida numa outrada, digo, tourada.

Sair desta, não ceder do desejo próprio,

 esta é a libertação que em Mim-úrra,

 O fim do espetá-culo!!!

 

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