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temas clave: psicoanálisis Lacan política pensamiento revista digital


Arenas I Serigrafía sobre papel, 70 x 50 cm.  2005
Maria Suardi (cortesía del Centro de Arte Moderno)

 


A violência como sintoma na emergência de um novo sujeito*.

Jorge Gravanita
Centro Português de Psicanálise

“O sujeito é , pois, aqui criador, mas ele está também vinculado ao outro, não enquanto objecto, imagem ou sombra do objecto, mas ao outro em sua dimensão essencial, sempre mais ou menos elidido por nós, a esse outro irredutível ao que quer que seja de outro, quanto à noção de um outro sujeito, ou seja, ao outro, enquanto ele”

J.Lacan1

Abordaremos neste artigo a temática da violência, partindo do conceito de “novo sujeito”, e da sintomatologia presente em diversas das suas manifestações.

Ao analisarmos a constituição do sujeito na contemporaneidade, impõem-se algumas considerações prévias sobre  as vicissitudes actuais desse processo. 

Todo o sujeito resulta de uma construção, num tempo e num espaço intermediário próprio, numa perspectiva psicanalítica. Não há, nesta dimensão em que opera a singularidade, um saber prévio, um objecto de conhecimento, que elimine o temor perante o desconhecido, o arbitrário ou o inesperado.

Aquilo que se teme e que se tem de enfrentar é da ordem do conflito entre a conformidade suposta e a ruptura pela violência implícita no desejo inconsciente.  

O grau de afecção e a sintomatologia reportam ao choque dessa violência subjectiva e intersubjectiva, nesse lugar onde se constitui o sujeito.

Dissimulada, a violência como sintoma, começa por um grau de conformidade, que reduz o risco de uma ruptura brusca. O paradoxo  neste novo  milénio, é se podemos olhar o sujeito dito pós-moderno, sem percebermos a sua  “nova economia psíquica” como sublinha Melman2, e sem que nos defrontemos com uma certa perplexidade :

Isto é, procuramos o sujeito num  tempo e num lugar onde ele já não está, transportando como sintoma, aquilo de que se quer libertar, pelo que a violência, opera intimamente como instrumento de corte.

Dany-Robert Dufour na sua obra “ A arte de reduzir as mentes”3 questiona se o sujeito crítico da modernidade e o sujeito neurótico freudiano ainda nosso contemporâneo, não estarão a dar lugar a um novo sujeito “deleuziano”,  esquizoide,  onde a circulação dos “fluxos”e a interconectividade prevalecem sobre as cristalizações identificativas e fixações neuróticas.  Este novo sujeito visado para ser consumidor  poderá obter tudo menos o acesso ao seu desejo. Vive naquilo em que é consumido pelo deslizar permanente dos estímulos e dos objectos virtuais onde funciona como ecrã varrido perpetuamente.

Porque aparentemente, com este novo sujeito encontra-se um mínimo denominador comum: não há uma norma exclusiva para o sujeito, mas existem uma série de pontos de  inscrição  simbólica, no universo social.

Não se trata pois de perceber apenas quais são os aspectos manifestos das novas formas de perturbação  mas o modo e  o momento particular  onde radica a violência emergente como precipitação na loucura,  enquanto acto sintomático do sujeito, para que possa ser prosseguido um trabalho de cura.

Nesta condição vertiginosa, aceder à analise  torna-se uma tarefa difícil pelo que  o “novo” sujeito remete-se para um deslizar  num permanente  agir de um determinante esquizo. Se aceita os condicionantes de partida de ser conforme a um tipo de exigência parcelar como  consumidor dedicado a um certo objecto, pode sentir-se feliz quando tem “algo mais”,  um “excesso” a entregar. O mecanismo da violência  opera então um acto  de corte,  e faz emergir nesse corte, o risco  inerente  à sua própria perca enquanto sujeito como errância numa linha de fuga.

Trataremos agora de analisar o fenómeno da violência como sintoma dessa perca.

A violência como  (re)apropriação do poder

A imposição social permanente de um objecto próprio de consumo, para cada sujeito, visa bloquear a fala emergente  e implica uma forma de subordinação a um tipo de autoridade que enfraquecida no domínio simbólico só se pode manifestar por um excesso, por uma certa forma de tirania enquanto simulacro de poder.  

A vontade de poder, encontra-se expressa pela identificação do eu com o poder absoluto 

“Eu quero o poder todo”**

No entanto, dir-se-ia que a intensidade da violência aqui emergente, se encontra dissimulada pelo relativo apagamento dos traços distintivos de uma personalidade.

Como se à superfície tudo pudesse ser acomodado, mas logo num outro plano não haja  lugar para a fala, mas apenas para o corte, o acto decisivo, o despoletar de uma situação potencialmente explosiva.

(Re)cortes

O corte auto infligido ao corpo, a ruptura abrupta de um laço emocional, ou a descoberta do paraíso numa seita messiânica, não são formas da habitual “passagem ao acto”, mas da instauração decisiva de uma descontinuidade, no processo de subjectivação, com o que implica de uma renegação da existência do outro.

Essa renegação faz-se em torno de uma fronteira que possa ser reconhecida como sinal, mas não como símbolo. É uma linha de fuga, que se atravessa, e a que se retorna sem que seja reconhecida.

Uma forma de reapropriação do poder surge como urgência de uma marca, de um limite imposto perante o outro.

A violência surge como acto emergente de um sujeito, cuja origem é a marca de um outro, ora apagada ora sublinhada.

Esse apagamento, procura apagar o quê? As manifestações, de qualquer subjectividade, da diferença irredutível, a qual é excluída do si-mesmo, para não ser mais testemunha de uma ameaça de falência, interna, que não pode senão tornar-se intolerável.

O que seria irreversível seria o apagamento definitivo dessa marca, dessa referência significante.

Impossível sustentação da imagem para o sucesso

Dir-se-ia então que aparentemente há uma certa normalidade que corresponde a uma estruturação relativamente adaptada, percebendo-se a  procura uma ajuda terapêutica, como uma forma de alivio para eliminar algo que pode ser prejudicial, uma fobia ou angústia exagerada. Num outro plano operaria como libertação da experiência  traumática, dos maus pensamentos  e dos sentimentos de auto desvalorização ou ainda da impotência em enfrentar uma  problemática conjugal e familiar. É assim o individuo singular, numa frágil condição ou padecendo de uma sintomatologia psicossomática que se confronta com a impossibilidade de ser o sujeito que deveria ser. Esta impossibilidade de ser, (saudável, jovem, atlético e culto consumidor, vencedor, famoso,) um moderno sujeito de sucesso, remete para trás de si mesmo, todo o sonho de que abdicou, toda a verdade possível, da desilusão e do fracasso da autenticidade e do confronto com a verdade.

A imposição social da fixação de uma imagem e de uma eterna imutabilidade como sinal de uma saúde eterna física e psíquica, de como corresponder a uma aparência de sucesso, determina que a  necessidade de um certo refúgio em categorias psico-patológicas light que servem de ecrâ onde se pode colocar tudo ( da hiperactividade infantil, ao esgotamento mental do adulto, à fibromialgia), as quais  de algum modo, permitem uma certa paragem na tendência vertiginosa onde a voragem da paralaxe do tempo conduz o sujeito a um estado para-limite.

Perspectiva-se assim a paralaxe4, entre a imagem fixa idealizada e a deriva de uma aceleração vertiginosa na montanha russa da embriaguês do sucesso sem- limite,  num busca obsessiva da euforia, e o evanescimento da subjectividade.

Assim, para tapar esse buraco, que é necessário suprir , visa-se a miragem de uma satisfação plena, de uma plenitude totalizante  e buscando a absoluta objectividade de ser na totalidade o que querer ter totalmente a plenitude, o anular da falta e da castração, pelo transbordo pleno, do ser sem-limites5.

Sendo este objectivo uma auto-imposição impossível de realizar, esta demanda vem colocar-se desde logo como exigência de sucesso no tratamento.

Assim a primeira inferência  que vem implícita na demanda inconsciente de um novo sujeito é a do sucesso como objectivo terapêutico.

Aquilo que deve ser ultrapassado são as dificuldades os embaraços provocados pelos sinais de quebra, as hesitações as dúvidas, as inquietações.

Embora haja uma dúvida, que diz respeito ao sentido da sua experiência, a um determinado aspecto que estará por resolver, o que se procura é uma resposta que finalize com toda insegurança e vulnerabilidade .

A violência estética

Subjugada à imagem, a subjectividade surge ameaçadora como resultante do olhar e da fala do outro.

Assim a jovem bela mas insegura com a sua sexualidade e aquilo que pode representar enquanto objecto do desejo do outro, relata os comentários dos homens na rua que lhe parecem dizer:

És feia, muito feia!!!

As palavras soltas pelos desconhecidos na rua, falam aí, no lugar onde nenhum ideal de beleza permite manter a invulnerabilidade do todo.  

Não pode suportar esse olhar nem essas supostas palavras, porque não está conforme .

Os piropos na rua,  na falta e no excesso, são o alimento do  seu dismofismo, numa forma de  violência contida, cuja desproporção, deforma a própria  imagem enquanto possível objecto de desejo.

A palavra tem aqui um efeito na percepção da imagem corporal, e transforma-se alucinatóriamente ao longo dessa deformação.

A palavra aqui alucinada procura um Não. Uma demarcação ou um limite interno .

Seria preciso um não, para  que se afirmasse como sujeito que se liberta de uma tirania totalitária.

Aqui, ser bela, tal como ser magra, é apenas a conformidade a uma categoria vazia.

É ser vazia e próxima do nada

Como nos casos de anorexia. No não às necessidades do corpo, a falta de um outro não.

Tal como nos casos de suicídio, o sacrifício é aqui sempre um excesso inútil.

Sucede que o suicida se declara impotente para escolher a vida com a sua imperfeição e na duvida sobre se está vivo ou morto, a morte é a possibilidade que deixa uma dúvida ainda mais inquietante. Porquê?  

Um salto no escuro

Também aquele que declara estar morto, em vida impossibilita que esta afirmação paradoxal possa ser desmentida.

Assim como a incerteza expressa deste modo:

estou morto ou vivo?”  “nem sim nem não.6.

 É nesse intervalo, nesse não saber, nessa indeterminação que pode surgir aquilo que é a falha no sujeito. É aí que a verdade do sujeito se apresenta entre as perspectivas determinadas  pela dinâmica do desejo, na direcção do seu objecto.

De acordo com Zizek ( 4)

“The truth is not the “real” state of the things, the direct view of the object without perspectival distortion, but the very Real of the antagonism witch causes perspectival distortion”

Um paciente descreve o que sente quando tem de assumir os seus verdadeiros sentimentos:

Perante o objecto do seu desejo fica inibido naquilo que pode ser  :

Dar um grande salto no escuro”*
“Tem receio de perder tudo”

Partimos desta  perspectiva de uma certa paralaxe do sujeito sempre que tem de se confrontar com o outro e suportar a dificuldade da descontinuidade.

A imagem de si que lhe vem do passado, era heterogénica, como o primeiro trauma onde se reconhece o sujeito.

 Depois ao crescer, impõe-se uma dinâmica de autodeterminação, mas onde terá de se inserir numa massa de sujeitos anónimos que se pretendem libertar de uma  sujeição originária. Um entre muitos, este novo sujeito procura ignorar todas as representações desse passado.

Retomemos agora os relatos clínicos  

“Ele sempre achou que iria marcar a diferença, onde toda a gente está,
Ele marcaria a diferença, mas não sozinho”
“quando vou sozinho, vou para onde?”**

Está vulnerável, está desamparado

“Se alguém põe em causa uma decisão minha, caio no chão.
A dificuldade está em trilhar um caminho”
Deixou para trás os sonhos (porque não se realizam), Deixou a tradição da igreja,
 “ Foi uma questão de afirmação”
 “abandona os estudos”, (em troco de nada)
“agarrei-me aquilo que me dava mais gozo”
“trazer as coisas para o instante”

Ficou naquele ponto onde o tempo se reduz

“ Naquele momento senti que o meu futuro desapareceu”
“ Não há  Futuro”
“O Futuro para mim nunca existiu”
“ ultimamente não tenho muita coisa a que me agarrar”
“agora vai vivendo o momento”
“ viveu sempre entre o futuro e o passado.”

Em primeiro lugar  vivia no futuro (numa contagem decrescente, antecipava o futuro)

E  sempre que do futuro  se chegava ao  presente, a frustração deixava-o sempre com um sentimento de impotência.

Aquele futuro tinha de se transformar no presente, logo agora é impossível sonhar com uma coisa que não possa realizar.

Um certo mal-estar

Embora possamos supor que aquilo que aflige o individuo em trânsito para a  sua condição de “novo” sujeito,  possa estar num certo grau de dificuldade em atingir os seus objectivos quer eles sejam de ordem familiares, profissionais ou de realização pessoal,  podemos perceber algo que por ser relativamente difuso, só poderíamos definir como um indefinido mal-estar, sempre que se pode indiciar o desejo no sujeito.

Esse mal-estar não decorre  apenas de uma incapacidade em suportar a frustação, mas de se manter perpétuamente nessa dimensão intermediária onde possa estar excluída a frustação.

Assim encontramos uma modalidade particular de percepção temporal, a partir de uma negatividade que comprime a temporalidade no ponto, a anulação  num instante, e simultaneamente a abolição do ternário.

Assim a representação do Passado,  “a desilusão de um futuro desaparecido
A do Presente  “ Como que reduzido, comprimido ao mínimo, anulado
e  a do Futuro. “O Sonho é a não realização”          
“Só sonharia com aquilo que pudesse realizar”
“errei em todas as decisões!”

Quando se encontra perante a inevitabilidade do erro, surge a errância, a deriva,
Como uma linha de fuga, a um destino traçado”
Tudo é assim preferível, para fugir ao destino.
Mas a fuga é ainda um destino
E quando se perde o trilho , e  não há caminho?
Quais as   alternativas  que restam?
“explodir com tudo”, (voltar ao inicio), e começar tudo de novo?

Aqui perante a impossível negação, da  “não existência”, ou a de uma espécie de não-morte  surge a necessidade de um momento instaurador, de um salto para uma nova cena.

Encontramos expressões simples de violência: “partir tudo” ao seguir de uma linha de deriva “ deixar tudo” (família, trabalho, etc..), perante um sentimento de impotência e de dificuldade em suportar um dado posicionamento no contexto social.

A violência da escolha

O  dilema da escolha que perturba o sujeito não passa pelo ser  autentico por aquilo que  é, mas de ter de se identificar simultâneamente com aquilo que seria suposto.

Ao assumir uma escolha, instaura-se uma dificuldade em compatibilizar as determinações éticas da escolha, e a liberdade ou a submissão do sujeito, à violência da condição de onde emerge. 

A autenticidade, como marca de origem  de um sujeito escapa-se com a imposição quase permanente de uma aparente multiplicidade.

A dificuldade aqui resulta da tendência à exclusão da renuncia do lado do novo sujeito.

Ele é suposto não ter a opção de renunciar perante um objecto colocado ao seu dispor. 

Para alguém ser considerado um sujeito na sua relação intersubjectiva, tem de abandonar a multiplicidade de opções que se colocam em abstrato.

O melhor dos mundos possíveis revela-se uma abstracção da qual Deus se retirou, exatamente pela sua omnipotência e omnisciência.

Não se trata apenas de renunciar à escolha de algo, mas de renunciar á posição de ter  de corresponder a um multiplicidade de escolhas.

Assim, quando se cresce, de algum modo renuncia-se uma certa inocência da infância.

Quando se escolhe um objecto , escolhe-se sempre algo mais do lado do sujeito.

Quando se opta , assume-se uma renuncia a uma série de alternativas.

O dilema para este “novo” sujeito não é entre opções, mas entre optar e não optar:

A impostura como violência

Debrucemo-nos agora sobre a convicção da mentira e a impostura.

Já Proust opunha o eu mundano (das conveniências sociais), ao eu verdadeiro(revelado através da escrita).A supressão da valoração da verdade, por oposição à necessidade imperiosa de manter as aparências, torna irrisório todo o trabalho de descoberta que vá para além da superficialidade, da reprodução de uma imagem de amor próprio, isto é, que contribua para o culto narcísico.

Como vimos, o novo sujeito sofre irremediavelmente de um efeito de paralaxe.

Ele mais do que não suportar o olhar do outro (porque precisa desesperadamente dele).

Ele não suporta a diferença entre si e a sua imagem si , mesmo se devolvida pelo espelho mais benevolente. Para escapar à captura narcísica supõe-se a participação implícita de um outro no lugar  do terceiro.

Do lado da impostura podemos descobrir como a vulgarização da mentira, na maquina publicitária,  nos conduz à impossibilidade de saber como destrinçar a mensagem da sua distorção manipulativa que conduz o sujeito a uma certa disposição adequada a um certo produto de consumo.

A resolução deste dilema só poderia  ser dada por uma alteração da determinação do lado do sujeito, que suporia uma recusa a ser cúmplice dessa impostura.

Consideremos então a impostura como uma forma de poder que subjuga o sujeito e o seu desejo. A sujeição à mentira como simulacro da verdade, é a condição dessa impostura.

Esta nova sujeição não impede a liberdade de  alguém se manifestar, mas  implica que cada escolha própria e única do sujeito, só possa ser suportada pela radicalidade de uma ética. 

O que distingue a tirania, mesmo se brandida em nome da liberdade não é o carácter totalitário de um regime, mas a possibilidade de assumpção de um qualquer conflito com esta forma de poder.  A tirania determina uma forma de conformismo que alicia o novo sujeito a não optar, e perante a inevitabilidade de um percurso, impõe-lhe  a submissão.  Há, assim, uma certa submissão deste novo sujeito, numa sociedade pós-moderna, onde quase tudo na aparência está disponível,  a um quadro de referência externo de que apenas se pode usufruir marginalmente.

A luta pela verdade no sujeito implicaria a ultrapassagem dessa impostura como processo que determina a impossibilidade de uma escolha própria num dado sujeito.

Mas em nome do outro idealizado, como no culto da personalidade, ou  de um conceito abstrato, como o “progresso” ou a “felicidade”  como Orwell tão bem demonstrou, a tirania impõe-se  na aparência em nome da “Liberdade” e do “Amor”  em nome da Verdade, e excluindo o erro.

A mentira impõe-se pela convicção,  assim em nome da verdade.

A conformidade  aqui resulta da dificuldade em renunciar ao lugar onde é suposto estar legitimada a sua posição, como sujeito.

Este lugar onde se dilui o sujeito, mas onde é preciso uma multidão, para manter uma imagem (ver sucesso e queda no prestigio dos tiranos e das celebridades).

O que poderia motivar este novo sujeito, libertando-o da monotonia e do conformismo?

A violência íntima e suas consequências

Os  trilhos para o novo sujeito não são alternativas mas verdadeiras linhas paralelas, onde se pode seguir a velocidades diferentes, mas convergentes num ponto.

Tal como assinala Canetti7, a diluição na massa anónima permite enfranquecer a fobia de contacto, e encontramos deste modo, uma semelhança entre a submissão e diluição do soldado marchando para a frente de batalha e a submissão do esquizofrénico às “vozes ecoantes de diversas entidades”.Assim o soldado exemplar é o que de algum modo entra em ruptura, consigo e com a vida para além da guerra, ao matar sem parar o inimigo, e sobrevive.

É essa a tragédia do vencedor, e a derrota intima do sobrevivente neste campo de batalha da actualidade. 

Já Samuel Beckett questionava: em “O inominável”8
“Onde, Agora? Quando, Agora, Quem agora?”                         

*Este texto desenvolve a comunicação apresentada em Portugal no II Forúm de Psicologia Clínica em Fevereiro de 2007  na Biblioteca Nacional em Lisboa. 

** Relatos Clínicos

1 Cf. Lacan, J  “ Seminário III”

2 Cf Mlman, C “O Homem sem gravidade

3 Cf Dufour, D “ A arte de reduzir as cabeças”

4 Cf .Zizek, S “ The parallaxe view”

5 Cf Rassial “O sujeito sem limites

6 Cf .Green, A “ La folie privée”

7 Cf.Canetti “ Masse et puissance

8 Beckett, S The Unnamable  

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