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temas clave: psicoanálisis Lacan política pensamiento revista digital |
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Lino grabado 2006, Rufino De Mingo (cortesía
del Centro de Arte Moderno)
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Entre a proibição e a prescrição - que
lugar para o sujeito na "saúde mental"?
Vitor Igor Lobão
Psicoanalista
Eu não possuo o meu corpo - como posso
eu possuir com ele?
Eu não possuo a minha alma - como posso
possuir com ela?
Não compreendo o meu espírito - como
através dele compreender?
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego) |
Após o Maio de 68, onde se lia "É proibido proibir" nas
paredes da Soborne, assiste-se, de uma forma insidiosa e encapsulada, à entrada
numa era proibiccionista em nome da higienização da sociedade,
contrastando contra o pano de fundo bipartido entre o que é o
movimento de liberalização do mercado e o panorama dos
Direitos do Homem (tríade antinómica que não é sem-ligação).
Refiro-me, a título de exemplo, às medidas de restricção
do consumo de álcool a serem apresentadas a 18 de Outubro de 2006 em Bruxelas.
A proposta é a de se dar o mesmo tratamento ao álcool que se dá ao
tabaco.
Não pretendo aqui um posicionamento moral sobre o que é o consumo
do álcool, nem de defesa nem de culpabilização do(s) consumo(s),
mas tentar perceber a causalidade do proibiccionismo e do restriccionismo que
se vão insinuando, em relação a uma sociedade que pretende
valorizar a liberdade e a responsabilidade do sujeito.
Diria, inclusivé, que se estas medidas não visam, primariamente,
o sujeito mas o sintoma que se expressa nos excessos de consumo
(álcool,
tabaco, alimentação "desiquilibrada", etc), é por
não existir um entendimento, quanto muito uma compreensão radicalmente
equivocada acerca do que é a via sintomática em si mesma enquanto
um excesso (a psiquiatria e a "psicologia científica" são
um exemplo do que institucionaliza esse mal-entendido), que o sujeito é atingido
no seu núcleo mais duro.
Peguemos, então, na horizontalidade com que se equipara o tabaco e o álcool.
Ora, as estatísticas sobre a mortalidade provocada pelo consumo do tabaco
em nada poderão ser comparadas com as do consumo do álcool. Um
elemento paradoxal nesta horizontalidade poderá, inclusivé, ser
evocado se frisarmos o facto de muitos médicos recomendarem o consumo
moderado de cerveja e vinho tinto, o que não se poderá dizer em
relação a nenhum tipo de tabaco, a menos que, seja divulgado algum
estudo científico que revele os seus benefícios "miraculosos".
Talvez possamos obter uma visibilidade mais profunda nesta horizontalidade
paradoxal, se a pegarmos pelo que é o "efeito do álcool" no sujeito
e porque é que esse efeito surge como uma via sintomática, pois é esse
efeito que é visado pelas medidas de higienização (e consequentemente
o sujeito, pois não existe "efeito do álcool" sem um
sujeito que o vivencie). Chegados a este ponto, talvez possamos avançar
um pouco mais e afirmar, através de uma inversão dialéctica,
que não é o "efeito do álcool" que é visado,
mas o "efeito do sujeito" no álcool, o que nos poderá conduzir
para outro tipo de conclusões.
Façamos aqui um interstício para sinalizar, como que em "voz-off",
o que Freud nos revelou sobre o sintoma: o facto de que ele condensa em si uma
verdade incompreendida pelo próprio sujeito.
Talvez possamos observar qualquer coisa oculta na ideologia de liberdade,
em que assenta a nossa sociedade, e directamente relacionada com o sintoma
contemporâneo, se tomarmos como premissa que o que a
dinâmica
da sociedade ocidental teme, o "horror" inerente à ideologia
da liberdade, é, nada mais nada menos do que o "efeito do sujeito" livre.
Este "efeito do sujeito" causa horror, precisamente, na Real
liberdade que ele tem em dissolver, em abdicar da sua liberdade; mais, naquilo
em que ele não consegue suster a sua liberdade. Na verdade, a prescrição
de liberdade acaba por ocultar um paradoxo, que é revelado no sintoma
- o mandamento de se ser livre: o sujeito é obrigado a ser livre, o que é precisamente
o avesso da "liberdade livre" declamada por Rimbaud. Verdade
que é subjectivamente objectivada pelo sujeito ao caminhar na areia movediça
do excesso da "repetição compulsiva", seja no
consumo de álcool, seja no consumo de outras substâncias psicotrópicas
e psicoactivas, lícitas ou ilícitas, entre outras formas de cativeiro
forçado.
O que fica propositamente incompreendido (a fórmula do recalcamento [Verdrangung]
dada por Freud é de um "não querer saber", mas
o que se passará na nossa sociedade será mais o mecanismo perverso
de "rejeição" [Verleugnung] desse saber incómodo) é que
o excesso sintomático é um resultado intrínseco
ao funcionamento da própria estrutura, da própria organização
e funcionamento de uma dada sociedade: é-lhe profundamente inerente (vemos
isso na chamada "Lei Seca" nos anos 20 nos EUA, originando toda uma «transgressão
inerente» (Slavoj Zizek)- passou-se a beber mais do que se bebia anteriormente).
Por outras palavras, fica por explicar e, principalmente, por reflectir os factores
estruturais que conduzem cada vez mais à «transgressão
inerente» do sujeito em direcção a um "gozo
da des-simbolização", conceito que ganhará toda
a sua relevância no decorrer do texto ao desvelar o outro lado oculto do "efeito
do sujeito livre".
A questão que para mim se torna pertinente é a forma como a "Estrutura
de Dominação" (na linguagem lacaniana, a clássica estrutura
de dominação efectiva-se através do Discurso do
Mestre) que originou o excesso, combate esse seu próprio excesso.
Por exemplo, paralelamente às medidas de reforço e restricção
de todo um conjunto de substâncias com efeitos psicoactivos, cresce o consumo
de drogas prescritas por médicos. A ONU em 2005 chamou atenção
para a medicalização abusiva das populações (Portugal
com níveis excessivos em relação ao resto da Europa), advertência
que parece ter caído em "saco roto".
Ou seja, se por um lado, como consequência das sociedades sujeitas
aos imperativos do mercado e do consumo, surge o excesso que
designarei de a-subjectivação" (tendência para o grau
zero de subjectividade pela sua implosão no objecto de "mais-de-gozo" consumista):
o sujeito "pedrado", tal como o sujeito viciado na playstation ou mesmo
na televisão, são cenários de a-subjectivação, do
qual a depressão é a ilustração do seu paroxísmo
máximo; por outro lado, o Poder higienizador (neste caso, não se
poderá falar concretamente do Discurso do Mestre mas do Discurso Universitário,
visto que a sua legitimação é em função
de um saber: o saber científico) da sociedade combate
esse excesso através
de um outro - neste caso, a prescrição médica de anti-depressivos
e ansiolíticos (entre outros). Ou seja, a a-subjectivação que
o sujeito procura, obedecendo às coordenadas superegoicas socialmente
codificadas expressas no seu sintoma contemporâneo, através
de substâncias que são alvo de proibições ou restricções,
otbtem-as, de uma forma sintomáticamente legal, através da psiquiatria.
A insuportabilidade-social-do-sintoma a isso conduz: o sintoma na sua vertente
masoquista, a sujeição à tortura desse sintoma, cumpre também
a finalidade de provocar angústia no Outro, na medida em que lhe é sempre
endereçado, o que permite desvelar qualquer coisa do posicionamento (anti-séptico)
desse Outro (social) contemporâneo face à angústia.
Este saber propositadamente excluído, incompreendido, clandestino
(sans-papiers,
assim por dizer), é um saber inerente ao lugar dos "técnicos" que
trabalham com a "cura pela fala", até porque eles testemunham
nos seus pacientes, enquanto receptáculos de uma fala, o excessos das
prescrições farmacológicas dos psiquiatras, o efeito desorganizador
e destruturador dos abusos das drogas legitimadas e que acabam por conduzir,
numa boa parte dos casos, à cristalização e cronicização
do sintoma. São os próprios sujeitos que testemunham dos efeitos
anestesiantes e destruturadores da medicação no seu recurso e no
decurso do trabalho da "cura pela palavra". O que implica que muitas
das pessoas que recorrem à "cura pela palavra", chegam
completamente desgastadas pelo seu sintoma somado aos insucessos das prescrições
de pharmacon; já estarão "nas últimas",
como alguém me dizia.
A actuação dos medicamentos, independentemente da actuação
orgânica e neurofisiológica que tenham, traduz-se numa epoché (suspensão)
do sintoma, no colocá-lo num plano de não-existência, o que
não é a mesma coisa que eliminá-lo. Colocá-lo num
plano de não-existência, em que o sintoma não é trabalhado,
elaborado, como é o caso do que se passa na actuação farmacológica, é o
equivalente a provocar que o sintoma retorne como insistência,
como aquilo que, parafraseando Lacan, não cessa de vir sem ter lugar (o
próprio sintoma é já a insistência dessa verdade
sem lugar).
Essa insistência é o que fica exposto a céu aberto, sem que
daí se retirem as devidas conclusões, com as passagens ao acto
como são o caso de determinados suicídios e homicídios,
por exemplo. Miguel Carmona, no seu blog Afreudite, menciona o facto de que os
IRS (inibidores de recaptura de serotonina) podem interagir com o sistema dopaminérgico,
gerando efeitos extra-piramidais , entre eles a "Acatísia" (agitação
psico-motora incoercível) que, nas formas mais graves pode ser vivida
como uma autêntica tortura, na origem de reações extremas
como o suicídio ou o homicídio.
Se os suícidos ocorridos durante a medicação anti-depressiva
são do conhecimento médico geral (a explicação jamais
se poderá reduzir à explicação biomédica
exemplificada por Miguel Carmona, isto porque ao suspender-se a verdade sintomática
o mais lógico é que ela retorne no Real enquanto acto) os homicídios
são o seu lado mais oculto (existem cada vez mais rumores entre o consumo
de Prozac e passagens ao acto de sujeitos com tendências potencialmente
homicídas).
Tal poderá ser explicitado pelo que Lacan chamou de forclusão (Verwerfung),
conceito que perspicazmente elaborou a partir do caso Schreber de Freud e que
se refere por excelência ao fenómeno psicótico: o que é rejeitado
no Simbólico retorna no Real. Por mais chocante que possa parecer, a actuação
de uma grande parte dos técnicos da saúde mental favorece
uma ancoragem neste mecanismo.
Não poderemos falar contudo numa psicotização do sujeito,
isto porque o que é rejeitado no Simbólico não é o
significante específico que Lacan designou o Nome-do-Pai: é mais
do que o próprio Simbólico em si, é o próprio sujeito
enquanto produto desse simbólico. Por outras palavras, o que a concepção
e actuação da psiquiatria e da psicologia cognitivo-comportamental
promovem sobre o sintoma é o que se poderá designar de des-substancialização, ou
seja, a a-subjectivação do sujeito.
Se cada um interpreta o Nome que recebeu do Outro ao interpretar o
Desejo do Outro no chamamento do seu nome, é, para exemplificar a des-substancialização,
o próprio nome (próprio) do sujeito que fica obliterado no acto
da catalogação psiquiátrica. O sujeito deixa de interpretar
sintomáticamente o que o Outro deseja no seu chamamento para se cristalizar,
doravante, em torno do nome sintomático que cataloga o seu ser (esquizofrénico,
depressivo, etc). Daí ao acto compulsivo de solicitação
de prescrição médica do pharmacon, como
resposta à catalogação, é um
pequeno passo.
A des-substancialização do sujeito é a forma correspondente à des-materialização
do objecto de desejo (o objecto a em Lacan) na sua fetichização em
objecto de consumo da sociedade capitalista. É assim que, como Slavoj
Zizek observa, temos café sem cafeína, sexo sem sexo (o sexo virtual),
fazer guerra sem soldados (a guerra "imaterial" e sem perdas de Collin
Powell), cerveja sem álcool ou fazer o budismo ocidental (um budismo mercantil
que nunca se poderá confundir com o verdadeiro budismo), política
sem política (ou seja, a des-politização inerente à sua
sujeição aos imperativos da tecnocracia económica) ou a
moda punk pós-punk (é o extremo da des-substancialização
do fenómeno punk, que na sua essência é uma anti-moda, pelo
imperativo de uma adesão puramente estética - hoje todos poderemos
ser punk's estéticamente sem o sermos ideológicamente).
Da mesma forma, os psicólogos cognitivo-comportamentais tratam disfunções
do processamento da informação e os psiquiatras desiquilíbrios
de neurotransmissores. A questão é: se é isso que eles tratam,
onde se encontra o sujeito? O que fazem com a fala que fala da angústia
do sujeito?
Para uns interessa que o sujeito (ou deverei dizer, o processador de
informação?)
cumpra as tarefas prescritas, para os outros que tomem os medicamentos. Isto é a
concretização da forclusão do sujeito,
a não
compreensão, ou, irei mais longe, a necessidade de rejeitação
de um saber (inconsciente) sobre a essência do sintoma, que nem por isso
deixa de ser nem uma "disfunção do processamento de informação",
nem desequilíbrios ao nível dos neurotransmissores, é verdade.
Só que ultrapassa ambos, naquilo em que ele comporta uma verdade intrínseca
ao próprio sujeito.
Talvez possamos compreender a necessidade de se forcluir o sujeito
numa sociedade em que des-materializa o objecto, se colocarmos a hipótese de que essa
des-materialização capitalista do objecto é a sua efectivação
e concretização nos mecanismo cada vez mais característicos
das sociedades contemporâneas sob a primazia do saber científico, legitimado
como o representante da Verdade para que não existam dúvidas, só a
reconfortante certeza cartesiana da frágil certeza de si.
Por exemplo, na actual codificação da convivência "politicamente
correcta" da nossa sociedade, ninguém quer ter como vizinho um obsessivo-compulsivo
ou um paranóico, precisamente porque a loucura do Outro toca na
nossa, o inconsciente do Outro no nosso.
Penso que será também isto que muitos dos técnicos de saúde
mental querem evitar - que o Outro toque o seu próprio inconsciente, que
o Outro desarrume o que está fragilmente arrumado, que instaure a dúvida
sobre as certezas (cientificamente) adquiridas: que instaure a dúvida
sobre a nossa própria normalidade e que nos reenvie para os nossos próprios
traumas. Para isso o melhor é calá-lo, sedá-lo com medicamentos
ou umas quantas tarefas. "Não o temos que ouvir, temos que o tratá-lo
de acordo com o Paradigma (se fosse dito pelo Estaline,
seria de acordo com Partido - não era comum na antiga Russia
que as "vozes" dissidentes eram sinal diagnóstico psiquiatrico
de perturbação mental e internadas no Instituto Scherbsky
de Moscovo?)
É fácil, ao observar o movimento da sociedade em que estes saberes
e práticas são "capitalisticamente" legitimados
pelo paradigma
tecnocientífico hegemónico, que o saber científico,
até pelo facto de reduzir o sujeito à quantificação
numérica, implica-se numa prescrição de des-substancialização,
de erradicação do "efeito do sujeito livre" pela
sua higienização.
O acto de prescrição farmacológica enquanto o exercício
de poder legimitado (e prescrito) por uma dada estrutura de dominação, "força-nos" a
interrogar sobre as pretensões não explícitas dessa estrutura
que estão na génese da inegável «transgressão
inerente» contemporânea do "gozo da des-simbolização". Como
nos demonstrou Lacan, a Lei, e falemos dos imperativos de subjectivação
da Lei hoje (passamos de uma temporalidade regida pela Lei do Desejo,
como era no tempo de Freud, para uma outra regida pela Vontade de Gozo),
reveste-se por uma paradoxalidade: comportam, por um lado, a proibição e,
por outro, organiza a inerente prescrição de gozo: o supereu
lascivo e bulímico que hoje em dia consuma o inédito "gozo
de des-simbolização". Concomitante a esta
lógica,
penso ser perfeitamente legítimo afirmar que a depressão surge,
não só mas também, como uma «transgressão
inerente» à própria prescrição médica
de psicofármacos.
Aliás, conforme consta num artigo do jornal Metro de 29/09/06, no qual é indicado
por um psiquiatra da consulta de Prevenção do Suicídio dos
Hospitais da Universidade de Coimbra que a taxa de suicídios duplicou
entre os anos 90 e 2003, é omitido o facto de que é nesse
mesmo periodo que, curiosamente, surge um boom cada vez mais exponencial do
consumo de anti-depressivos. Algo que aparentemente não também
foi observado, foi o hipotético número de pessoas que se
suicidaram e que se encontravam medicadas por anti-depressivos.
Eu diria que, até certo ponto, a psiquiatria surge (e até que ponto
sem o saber?) como um dos mecanismos da actual estrutura de dominação,
situado no patamar subterrâneo (secreto) da ideologia da liberdade, que
procura reconduzir o sujeito à "servidão voluntária" de
que nos fala La Boetie, reconduzir o sintoma, enquanto questionamento
incompreendido pelo sujeito sobre a sua própria liberdade de sujeito, ao silêncio.
Parece-me significativo assinalar a observação de Miguel Carmona,
que no seu blog chama a atenção para as ligações
perigosas reveladas no nº712 de Junho de 2006 da revista "Sciences
et Avenir", em que 56% dos peritos psiquiatras que participaram na redacção
do DSM4, a bíblia da classificação das perturbações
psiquiátricas, têm ligações financeiras com laboratórios
farmacológicos.
De que outra forma explicar a insistência numa sobremedicação
das populações, apesar de todas as advertências, e o acesso
vedado dos psicólogos e psicanalistas às instituições
de saude mental do Estado e ao (verdadeiro, se é que existe em Portugal)
debate público sobre a “saúde mental”?
Retornemos agora ao aforisma de Lacan - o que é rejeitado na ordem simbólica
(neste caso, o sujeito) retorna no Real - de um outro prisma: não é o
ACTO de suicídio de um sujeito medicado com anti-depressivos a marca do
sujeito forcluido que retorna no Real, precisamente, enquanto SUJEITO-do-ACTO?
De que outra forma interpretar o que nos diz André Malraux na
sua Estrada
Real: "ninguém se mata senão para existir"?
Se tomarmos como premissa a afirmação de José Martinho,
de que "não existem homem e mulheres sem sintomas",
poderemos afirmar que na psicanálise o que está em causa não
será a tanto a cura do sintoma, mas permitir ao sujeito, ao desvelar as
suas marcas inconscientes, construir um caminho menos "masoquista" face
ao seu sintoma (incurável, como nos ensina Lacan), isto é, se considerarmos
o sintoma não como um problema mas como a oportunidade,
como parte da solução para os impasses em que o sujeito se encontra,
visto que no sintoma encontra-se condensado metafóricamente uma satisfação
pulsional substitutiva e, como "gozo masoquista inconsciente" que é vivenciado
conscientemente como sofrimento, a abertura à possibilidade de um acto
que permita ao sujeito aceder a um gozo mais verdeiro com a sua condição.
Privá-lo desta oportunidade através de tudo aquilo que
elimina a "fala em transferência", como foi o caso da tentativa
de higienização científica da sociedade que colocou a psicanálise
em dificuldades na França com a emenda Accoyer, seja através de "tarefas
comportamentais" ou através de prescrições psiquiátricas, é impedir
o sujeito de trabalhar a mudança que insiste, a revolução que
se antecipa incontornávelmente pelo sintoma (cabe assinalar aqui que não
se pode desvincular a revolução individual, de que o sintoma é mensageiro,
de um novo posicionamento na sociedade... ) Talvez seja o potencial revolucionário
da escuta do inconsciente que é temido, tanto pelo próprio sujeito
como pela estrutura de dominação actual. E refiro-me ao potencial
revolucionário do sintoma nos termos de Marx, na medida em ele considerava
residir na condição do "sintoma proletário" a
fundamentação da verdadadeira possibilidade revolucionária.
Uma palavra em relação às políticas de higienização: é necessário
considerá-las actualmente como correlativas à des-substancialização
da vida na perigosidade Real que ela implica, ou seja, de des-substancialização
da própria vida face ao seu Real traumático, ao que ela é de
excesso, de gozo e de mortal, e, acima de tudo, face à real liberdade
do "efeito de sujeito livre" e ao que isso comporta de responsabilidade
e de consequências para o sujeito-da-sua-liberdade.
Para finalizar num estilo de paródia, talvez se possa afirmar
que o grito inconsciente presente no ACTO (e temos de relacionar aqui
o ACTO com aquilo que Alain Badiou chamou de Paixão pelo Real,
ou seja, uma pseudo-estratégia
antagónica ao processo de des-substancialização que, ao
ser um retorno não mediatizado simbolicamente ao real do corpo, revela
nada mais do que a tentativa de evitar o confronto com o que de enigmaticamente
inconsciente germina nesse corpo de gozo, trilho que conduz o sujeito ao embate
com aquilo que o Real sem mediação tem de Vazio Destruidor [Slavoj
Zizek], do qual a auto-mutilação ou o suicídio são
demonstrações exemplares) possa ser traduzido da seguinte
forma: o Sintoma ou a Morte.
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