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Collage 2006 , Alfonso Bresmez, (cortesía del
Centro de Arte Moderno)
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A Subversão Capitalista
do Simbólico:
Um ensaio psicanalítico sobre o ruído
Vitor Igor Lobão
A ironia das revoluções é
que elas geram
um poder ainda mais absoluto em seu exercício,
não, como se costuma dizer,
por ele ser mais anónimo,
mas por estar mais reduzido às palavras
que o significam. |
Quais os motivos que conduzem a que o silêncio encerre em si um
carácter insuportável (não reconhecido) e constrangedor
nos actuais moldes e dispositivos da sociedade contemporânea? É a
pergunta de abertura do meu texto, a pergunta que irrompe do silêncio
que lhe antecede.
O que é que fundamenta que o silêncio tenha adquirido
tal carácter insuportável, ao ponto de ser imprescindível,
no quotidiano dia-a-dia dos mortais, a presença indelével
do ruído, de uma procura automática cuja necessidade escapa
despercebida ao sujeito, seja em casa com a televisão, seja no
carro com o rádio, seja na rua com os leitores de CD e MP3, seja
no metro com os ecrans gigantes, nos cafés, nas salas de espera,
nas discotecas, etc.…
O que esconde essa necessidade permanente e não reconhecida
e que finalidade cumpre são as perguntas que me movem neste texto.
Mais, em que medida está essa necessidade relacionada com a dificuldade
crescente em suportar o silêncio do psicanalista, necessidade cada
vez mais manifesta na actual estrutura e singularidade da demanda e do
sintoma.
Penso que, como tentarei demonstrar, por detrás do actual mal-estar
na civilização, o binómio silêncio-ruido serve
a um obtuso propósito e a uma nova forma de dominação
que se vem instalando de forma insidiosa na sociedade, na qual a psicanálise
surge confrontada com a ameaça de caducidade e de inutilidade,
a carta fora dos novos baralhos, não porque esteja desactualizada
ou porque seja inócua às novas modalidades de sintoma,
mas porque, muito simplesmente, não serve aos propósitos
desta nova forma de dominação e ao tipo muito especifico
de escravidão que impõe – a forclusão (exclusão)
do inconsciente, ou melhor, do sujeito do inconsciente. Vamos ver o que
isso quererá dizer e de que forma essa forclusão participa
no que Foucault designou “eficácia histórica” (Foucalt,
1997, pág. 25), uma temporalidade histórica indissociável
de um conjunto de proposições conceptuais e técnicas
que determinam a objectivação e hermenêutica do conjunto
de verdades, sejam religiosas, científicas, filosóficas, éticas,
entre outras, que regem essa mesma temporalidade. Como nos ensina a psicanálise
lacaniana, a verdade, a existir, reside numa exterioridade íntima,
numa extimidade, em relação a esse conjunto de
verdades que configura uma determinada temporalidade histórica.
Direi para já, que a forclusão do sujeito do inconsciente é a
forma contemporânea como se lida com essa exterioridade íntima
no acto de tecelagem da nossa própria temporalidade e da constituição
da nossa própria história. Mais do que não querer
saber dela, hoje procura-se elidir essa verdade extima do sujeito
através de passagens ao acto provocados pelo discurso da ciência
e consumados pelos seus saberes sobre um real impossível de simbolizar.
Refiro-me também ao vasto campo psi, desde neuro-psicologia, à psiquiatria,
passando pelas ditas “psicologias científicas”, e
porque não, por algumas escolas psicanalíticas.
Avancemos, agora, em direcção a essa parelha silêncio-ruído
como constituinte do mal-estar nos nossos dias. Para isso, nada melhor
do que começar por situar, por um lado, o sujeito que vivência
esse mal-estar no que é o seu ponto de partida, circunscrever
o acontecimento do seu lugar de origem, e, por outro lado, perscrutar
as condições contemporâneas de existência em
sociedade que inevitavelmente moldam o seu ser.
Ora, o lugar primordial pelo qual o sujeito se instaura como ser de
linguagem, pela qual ele se instala no simbólico, é, especifiquemos,
o lugar de falado. O sujeito antes de o ser é essencialmente um
ser falado. Ele é falado antes mesmo do seu nascimento e é porque
lhe falam, e convém sublinhar a importância da fala da mãe,
que ele é intimado a se inscrever, ele próprio, como autor
de uma fala, que, frise-se bem, é a resposta à fala de
um Outro. Diz Lacan – “não há fala sem
resposta” (Lacan, 1966, pág. 249), e é nessa
resposta, que também é uma fala, que importa situar para
já o sujeito.
Convirá referir que a inscrição do sujeito no
simbólico não é da sua autoria, visto que ele não
advém por ele mesmo numa total liberdade de decisão sobre
a sua essência. O sujeito, por si só, não se faz
a ele mesmo numa infinidade de possibilidades; ele é, na sua origem,
um vazio sem consistência simbólica num corpo com necessidades
biológicas. Assim, precisar a verdade da sua condição
de falante implica admitir que ela é decidida a priori do
lado de fora, verdade que reside num contrato de servidão ao Outro,
de sujeição ao que está instituído numa dada
cultura, num dado meio politico-socio-económico e numa dada estrutura
familiar. É essa sujeição que constitui a singularidade
da sua história e as marcas inconscientes que ele carrega enquanto
falante. Será seu trabalho posterior, ao longo da sua vida, saber
situar-se em relação a esse património e é por
isso mesmo que muitas vezes se recorre a uma psicanálise, sempre
que o desfasamento do sujeito com a sua própria história
se torna insuportável, com o retornar dos seus capítulos
censurados e mudos povoados no sintoma.
Trata-se, então, de perceber no campo da linguagem, quais são
os factores performativos determinantes que instalam o sujeito no simbólico
e que cristalizam a especificidade do mal-estar da civilização
contemporânea, trata-se de perceber a actual singularidade da função
da fala a partir das condições que estruturam e cunham
a sua existência.
Essa singularidade específica do nosso tempo marca a sua diferença
em relação a outros tempos e a outros contextos históricos.
Aliás, a função da fala inscreve-se diferentemente
não só consoante o tempo histórico, mas também
mediante o local geográfico e o contexto cultural, que têm
a sua temporalidade própria. Essas inscrições não
são, por exemplo, as mesmas no monoteísmo ou no politeísmo,
na Europa ou no Japão, nos tempos de hoje ou nos tempos de Freud
ou mesmo, porque não, nos tempos de António de Oliveira
Salazar, em que existia uma modalidade da censura que organizava toda
uma certa forma de gozo da língua.
Em relação a Freud, pode-se mesmo dizer que a sua descoberta
da psicanálise surge num certo contexto e como resposta a um certo
gozo d’alingua (lalangue). Lacan enfatiza mesmo que a psicanálise é um
sintoma de um mal-estar da civilização, que surge num preciso
momento histórico e num preciso momento do discurso da ciência.
Podemos, desta forma, conceber que os mecanismos psíquicos que
Freud descobriu e que Lacan logificou, como a denegação
(Verneignung), o recalcamento (Verdrangung), a rejeição
(Verleugnung) ou a forclusão (Verwerfung) são isso mesmo – modos
de se gozar d’alingua que variam consoante os contextos sociais,
económicos, culturais, históricos, etc.
Ora, a prática psicanalítica actual já não é a
mesma do tempo de Freud, como também a especificidade da demanda
de análise actual já não é a mesma. Alguns
poderão dizer que a psicanálise evoluiu. Por mim, preferia
dizer que se vai metamorfoseando de acordo com a estrutura de linguagem
em que está inserida, o que implica que a introdução
ao inconsciente seja dependente das variáveis que afectam essa
estrutura de linguagem e o inconsciente que aí radica. Poder-se-á ler
a “revolução” da psicanálise por Lacan
como esse esforço de a trazer para o presente da altura, um esforço
que já Freud teria iniciado e desenvolvido na sua época.
Como aparte, atrevo-me a colocar a hipótese de que se a psicanálise
não fosse descoberta naquele tempo talvez hoje tal proeza já não
fosse possível, num momento em que a utilidade do discurso da
ciência aparenta ser excluir radicalmente o inconsciente para que
o capitalismo melhor se sirva dele… É fácil constatar
que se no tempo de Freud o desejo era uma falta a conservar, como tão
bem mostra o sonho da bela açougueira na “Interpretação
dos Sonhos”, hoje o desejo é a mina de exploração
para o capitalismo, transmutado num vazio devorador a preencher a todo
o custo.
O real, por sua vez, determina também modalidades de gozo d’alingua.
A ciência, por exemplo, cujo saber cada vez mais introduz alterações
no real (o caso da clonagem), inscreveu as sociedades em novos gozos
e, inevitavelmente, em modalidades de fala inimagináveis para
Freud.
Freud jamais poderia vislumbrar as actuais práticas anti-concepcionais,
a aceitação pública da homossexualidade, as actuais
técnicas de reprodução assistida, a possibilidade
de mudança do sexo, a difusão de meios e instrumentos de
excitação sexual e de pornografia, o sexo virtual na Internet,
sem esquecer as potencialidades futuras do cybersexo, da clonagem, ou
da genética por exemplo. Estes novos gozos, digamos, pós-modernos,
apresentam-nos um autêntico ruído sexual, a fermentação
ilusória da possibilidade de superar a não relação
sexual, que mais não faz que retornar no real sob formas
mais angustiantes e cruas por onde se entranha a impotência (e
quem sabe no futuro a impossibilidade) de se ser sujeito, homem ou mulher.
Percepcionando estes factos, poderemos constatar que as modalidades
de inscrição no simbólico e da função
da fala são hoje inéditas e têm consequências
inéditas para a própria psicanálise. Ficamos obrigados
a ter em conta a influência que têm nessa inscrição
as televisões, os computadores, as playstations, os telemóveis,
os leitores de MP3, etc, para se poder compreender o lugar onde a necessidade
de ruído e da intolerância ao silêncio se aloja. Fica
por agora a pergunta – até que ponto estas novas modalidades
de inscrição na linguagem cumprem a função
de fala? Até que ponto não estará a existir uma
derrisão dessa função?
Retornemos, neste ponto, ao lugar primordial donde o sujeito vem a tomar
o seu ser, o de falado pelo Outro, para o questionar aí mesmo.
O sujeito, nesse lugar que o aliena como ser-falante, o que é que
ele ouve com os seus ouvidos?
Digamos que ele, na sua condição primordial de falado,
ouve algo que existe mas que também não existe, o que poderá ser
esclarecido ao se introduzir uma diferenciação entre a
voz modulada, na sua essência de puro som, melodia, e a voz articulada,
imperativa, ou seja, a voz como significante. É a conjunção
de uma voz com outra que funda o falado como auditor. Lembro
que a palavra auditor para além de remeter àquele
que ouve, refere-se também a quem faz uma auditoria, neste caso,
uma fiscalização do discurso em que é inscrito.
Por outras palavras, é aquele que assume um lugar de juízo
crítico e de responsabilidade face ao que ouve para dar com a
sua fala uma resposta.
Esta diferenciação entre a modulação
da voz e a voz como significante é importante, até porque
uma fala só pode advir por intermédio de uma voz e sem
o suporte dessa voz nunca uma qualquer fala poderá existir. O
que o bebé ouve primeiramente da sua mãe é uma voz
que consiste numa modulação sonora e não tanto a
sua articulação como significante. Ele é falado
mas ainda não é um auditor.
Talvez seja útil introduzir aqui um dos objectos a apresentados
por Lacan, a voz, e a sua correlativa pulsão, a pulsão
invocante.
Como Marie Christine Laznik demonstrou no seu trabalho com crianças
autistas, o som é um dos elementos presentes na relação
primordial do sujeito com o Outro. Pode-se dizer que, de certa forma,
ele é o alvo do “canto materno”, de uma fala onde
o significante, neste primeiro momento, nada mais é do que melodia,
musicalidade. Será, precisamente, a existência desse “canto” que
vai arrancar o sujeito de uma não-existência. O seu desejo é convocado
como o objecto visado pela pulsão invocante materna, pela voz
que procura a voz. «Vem», é o chamamento materno ao “acontecer” do
desejo, «Vem» que, nas palavras de Derrida, “não
se dirige a uma identidade determinável previamente” (Derrida,
1997, pág. 70), mas “será aquilo a partir do
que haverá o acontecimento, a vinda, o a-vir do acontecimento” (Derrida,
1997, pág. 68).
Essa pulsão invocante materna que comporta em si um fascínio,
na medida em que ele tem uma relação directa com o enigma
da origem do sujeito, é o chamamento que atrai do nada, que guia
o sujeito para a sua própria existência, e que, por isso
mesmo, subverte o gozo polimorfo mítico sob a cortina do desejo
a que dá lugar.
Mas não só. Se recorrermos à mitologia, constataremos
uma relação íntima e indissociável entre
o “canto materno” e o canto das sereias, que nos impõe
uma aparente paradoxalidade: a urdidura da vida e da morte. Se por um
lado, ele pode ser pensado como um chamamento à existência,
por outro lado, ele esconde o atamento a um gozo vertiginoso de não-existência,
a um gozo inefável que foge à apropriação
da palavra. É como se esse canto ao chamar à existência
situasse, a posteriori, o que é a não-existência,
o gozo da não-existência, ou seja, a pulsão de morte.
Poderemos observar e reflectir sobre esse atamento presente na voz fulminante
das sereias, por exemplo, através de um conto que delicia as crianças,
o conto de Philipe Soupault intitulado La Yara. A história descreve-nos
um rapaz que todas as noites ao deixar a companhia da sua namorada banhava-se
numa lagoa no seu caminho de casa, até que uma noite, a namorada,
ao sentir uma estranha emoção nele e pressentindo que ele
tivesse ouvido o irresistível chamamento de Lara, que chamava
todos aqueles que estavam para casar, deu-lhe uma concha para colocar
no ouvido por onde ele ouviria a sua voz, na esperança que suplantasse
o chamamento de Lara.
Já na Odisseia de Homero, no canto XII, as sereias são
apresentadas num prado recoberto de ossadas e cadáveres em putrefacção,
cujo canto embriagador atraía os marinheiros para a sua perdição.
Todos eles sucumbiam ao seu irrecusável e imperativo chamamento,
com a excepção de Orfeu e Ulisses. A voz que todos eles
escutavam, tal como no conto de Lara, era o imperativo de um gozo desenfreado,
louco e sem limites. Por outras palavras, essa voz, a voz das sereias,
representa o que escraviza o sujeito a um fascínio que o impede
de se instalar no simbólico, e, por isso mesmo, esse gozo é um
gozo cego para o seu destino, é um gozo mortífero que
está para além do amor e da morte.
Mas as sereias também nos revelam um engodo. Por detrás
do chamamento da pulsão invocante está o verdadeiro mestre
a quem ela serve, uma outra pulsão mais primitiva – a pulsão
oral ou de devoração. Vejamos: não era o destino
dos marinheiros serem devorados, completamente seduzidos por uma estética
que os impede de ver o cenário de horror e de morte que rodeia
as sereias e que é antecipador do seu próprio destino?
É aqui que o Pai toma o seu lugar, permitindo o ultrapassar
do impasse do fascínio do canto de sereia, impedindo que toda
a humanidade sucumba à devoração materna, à miragem
de uma orgia de puro gozo. Assim, à primeira voz, a voz da mãe,
que resgata o sujeito de uma não existência para tão
logo o aprisionar no seu fascínio, é necessária
uma segunda voz, que liberta o sujeito do impasse anterior, mas para
o sujeitar a uma genealogia: a voz, a enunciação do Pai
(pensemos na enunciação dos dez mandamentos), a voz está ligada
aos imperativos do superego, à Lei fundadora da sociedade. O Nome-do-Pai
será a operação que, ao colocar um ponto-basta no
canto materno através de um significante “interditivo”,
introdutor de uma falta e de uma dívida, consuma a ligação
da voz à palavra originando a cadeia significante em si mesma,
assim como, o efeito retroactivo da significação. É esta
operação que permite ao sujeito libertar-se do gozo
do ouvido, do gozo de uma pulsão de escuta, para
aceder ao gozo do ser falante.
De certa forma, pode-se dizer, que foi preciso à humanidade,
para sobreviver à dialéctica da devoração
canibalesca, a invenção do Nome-do-Pai, invenção
que Freud nos presenteia na construção mítica do “Totem
e Tabu”. Passado o ruidoso repasto canibalesco, é o pai
morto que vem a pontuar nesse ruído o lugar silencioso da sua
morte como o lugar da Lei. Se o ruído acaba por ser um tempo de
não-elaboração da culpa, é ao ocupar o lugar
silencioso que o sujeito também ocupa o lugar dessa elaboração.
É na medida em que o sujeito acede à Lei, que se interpõe
entre ele e o canto materno, que acede também ao simbólico
e à neurose, ou seja, à dimensão do ser-falante.
Posto isto, detenhamo-nos um pouco mais na Odisseia de Homero, nomeadamente
no facto de Ulisses ter resistido ao canto das sereias. Que consequências
poderemos mais retirar deste encontro?
Vejamos: antes do encontro de Ulisses com as sereias, ele já teria
feito toda uma travessia, inclusive ter ultrapassado Hades, o Reino dos
Mortos. Ele é aquele que também já tinha adquirido
um saber, um saber sobre o futuro com o adivinho Tirésias e um
saber sobre a provação que constituía a travessia
da região das Sereias com a feiticeira Circe, que lhe teria ensinado
sobre a forma como resistir à sua sedução. É a
este saber que Ulisses submete os seus companheiros para que a viagem
seja bem-sucedida, ou seja, eles têm que fazer o percurso com os
ouvidos tapados com cera.
No entanto, apesar de submeter todos os outros a esse saber, Ulisses é aquele
que constitui-se como a excepção a essa sujeição, é o único,
o ao-menos-um, que usufrui do gozo do canto das sereias, ainda
que amarrado ao mastro. Para além de uma eventual leitura desse
gozo como masturbatório e auto-erótico, esse gozo é um
gozo incompleto, não consumado na sua totalidade. Ulisses sabe
que não pode ir até ao fim e por isso pede para ser amarrado,
transformando, dessa forma, o que seria a sua impotência em resistir
ao chamamento das sereias numa impossibilidade em consumar o seu gozo.
As amarras constituem aqui a chave central do triunfo de Ulisses. Para
Adorno e Horkheimer este triunfo consiste no triunfo da racionalidade,
do eu contra a inevitabilidade do destino, na medida em que ele teve
a astúcia de se entregar ao gozo do canto das sereias sem se entregar
a elas. Penso que se poderá fazer uma outra leitura, se tivermos
em conta que a inevitabilidade do destino remete para a relação
entre a compulsão à repetição e a pulsão,
relação que subverte qualquer hipotético triunfo
duradouro da racionalidade e que assinala a verdade que escapa ao que é a
verdade do discurso da racionalidade. Se seguirmos aqui a proposta de
Foucault no seu texto O Pensamento do Exterior, onde considera
que “a espera de Ulisses acorrentado, é o próprio
ser da linguagem” (Foucault, 2001, pág. 53), então
poderemos afirmar que Ulisses, essencialmente, cumpre o seu contrato
de servidão à linguagem, amarrado ao Outro e castrado em
relação a um gozo absoluto.
Mas Ulisses é também aquele que faz funcionar, como diz
Lacan, “o saber como meio de gozo” (Lacan, 1992,
pág. 48), saber este que também constituiu um limite, uma
barreira em direcção a um gozo mortífero de devoração. É este
saber que, ao deter o sujeito perante um gozo letal, vai permitir a Ulisses
instituir uma transmissão e encarnar-se como o sujeito da enunciação
da sua travessia para o rei Alcino e para a sua corte, uma fala que é também
a condição de um trabalho de luto necessário face à nostalgia
e à “lamentação inaudível por não
ter escutado melhor e por mais tempo, por não ter mergulhado na
proximidade maior da voz admirável onde o canto talvez fosse consumar-se” (Foucault,
2001, pág. 41).
Mas esse saber assinala uma brecha por onde emergiu um novo tipo de
dominação social, conforme postulam Adorno e Horkheimer
na sua Dialéctica da Aufklärung (Iluminação).
Eles intuem, na minha perspectiva, a racionalidade não como um
patamar ideal e final da humanidade, mas uma forma de delírio
onde o saber constitui-se como a própria dissimulação
da necessidade de dominação. Desta forma, postulam que
as medidas tomadas por Ulisses para resistir às sereias pressagiam
uma dialéctica da Aufklärung, que consistiria no facto de
que toda a racionalidade “bem intencionada” que se proponha
a almejar a liberdade e dominar a inevitabilidade do destino a que a
existência humana está acorrentada, seja a angustia originária
do homem, seja a natureza exterior, seja a fragilidade da sua condição
interior, acaba por conduzir a processos de dominação política
e de escravização a uma racionalidade técnica e
instrumental. Nessa linha de pensamento, também Herbert Marcuse,
por seu lado, coloca a racionalidade política como uma consequência
dessa racionalidade técnica, na medida em que toda a tecnologia
permite estabelecer um novo sistema de dominação ao “instituir
formas novas, mais eficazes e mais agradáveis de controlo social
e coesão social”. (Marcuse, 1966, pág. 18).
A proposta de Adorno e Horkheimer, formulada em plena Segunda Grande
Guerra, pode ser lida no sentido da metamorfose do clássico discurso
do mestre num novo tipo de mestria fundamentado na Aufklärung e,
nessa medida, permite o desvelar nesse novo tipo de tirania de uma nova
estrutura de dominação que se legitima do saber e que é inaugurador,
concomitantemente, de uma nova forma discurso, o “discurso
do mestre pervertido” (Lacan, 1992, pág. 174), que
Lacan também denominou de discurso universitário. O que é,
desta forma, veículado, é a ilusão de um saber que
se sabe a si mesmo por si mesmo e que legitima a tomada de certas decisões “para
o bem da humanidade”, saber este que se encontra, na sua matriz,
excluído da lógica do sentido subjectivo de cada sujeito.
Ulisses, é quem goza um privilégio de classe, nos termos
de Marx, uma vez que toda a tripulação de ouvidos tapados é condenada
a trabalhar sem nenhum gozo. Paradoxalmente, é preciso que assim
seja, conforme nos propõe Hegel. É no interior da dialéctica
do senhor e do escravo, da dominação e da sujeição,
que a Lei do desejo tem uma primeira inscrição, o que,
em certa medida, implica, como Kojeve escreve, que “em seu
estado nascente, o homem nunca é apenas homem. É, necessária
e essencialmente, senhor ou escravo” (Kojeve, 2002, pág.
15).
Neste contexto, pode-se dizer que Ulisses surge como sendo aquele que
exerce uma certa pére-version ao conservar para si todo
o gozo, ainda que incompleto, enquanto agente da castração
da sua tripulação. Caso contrário, caso os marinheiros
violassem esse saber que autoriza Ulisses em ser a excepção,
retirassem a cera dos ouvidos e escutassem o que é o objecto do
seu gozo, sabe-se lá o que poderia acontecer, uma mudança
de rumo, uma sublevação, ou até mesmo a sua perdição. É por
isso mesmo que é necessário que os marinheiros trabalhem,
concentrados no rumo que um saber lhes apresentou e surdos a tudo aquilo
que pode colocar em perigo esse mesmo rumo. Disso, sem dúvida,
foi algo que a sociedade sempre cuidou, da necessidade da disciplinação
e da docilidade dos espíritos, como diria Foucault, para que a
coisa funcione.
Chegado a este ponto, considero que para se conceber uma teoria contemporânea
do adestramento e do controlo dos corpos, do qual “O Homem-máquina” de
La Mettrie seria uma bela imagem prototípica, tem que se ter,
inequivocamente, em consideração a pertinência fundamental
que a surdez e o ruído têm hoje na implementação
de uma estrutura de dominação mais apropriada aos propósitos
do novo mestre. Esta estrutura de dominação contemporânea
efectiva-se pela transição da posição “clássica” do
mestre, enquanto representante da Lei e da interdição,
para uma posição de dominação onde impera
a tirania e a promoção do objecto a enquanto mais-de-gozar,
através da massificação do que anteriormente era,
não os objectos visados pela interdição, mas a própria
posição de excepção face à interdição,
que avaliza ao sujeito a legitimidade de gozar de tudo aquilo que o mercado
tem para lhe oferecer.
Para Adorno e Horkheimer, a surdez provocada nos marinheiros em nome
de um saber é a metáfora do que consideram estar no cerne
do que eles designam de «indústria cultural» – a
produção de um enclausuramento dos trabalhadores através
da surdez com o propósito de impedi-los de ouvirem o que se constituiria
como o inaudito – «indústria cultural» que
nada mais é do que a massificação do canto de sereia,
a produção de uma sonoridade constante, ininterrupta e
repetitiva que visa impossibilitar ouvir o inaudito no silêncio.
Com o capitalismo, o que seria na mitologia uma incursão perigosa
pela região das sereias no qual só existia um, o ao-menos-um,
que encarnava Ulisses como o detentor do gozo, tornou-se numa excursão
mercantilista com todo o tipo de amarrações ao mastro,
sereias e chamamentos artificiais disponíveis a qualquer momento
consoante o bolso de cada um, tornou-se numa ficção da
liberdade de gozar, numa pseudo-liberdade cega e surda para o enclausuramento
orquestado ao mais-de-gozar.
A função da ek-sistência do ao-menos-um é abolida
em proveito da manipulação ilusionista dos ideais de igualdade
e liberdade, até porque A Liberdade e A Igualdade somente existem
enquanto Universais.
Retornemos novamente à questão da massificação
do ruído. Hoje, a consequência desta massificação
resulta em dois tipos de surdez: a primeira, é um efeito secundário
e já um problema de saúde pública, a dos danos irreversíveis
no tímpano. O jornal Diário de Notícias de 22 de
Março afirma que os especialistas na Alemanha garantem que um
quarto dos jovens já tem problemas auditivos e que cerca de 30%
terão que usar um aparelho auxiliar de audição aos
50 anos. Já nos EUA, cerca de 50% dos estudantes universitários
apresentam sintomas de perda da audição. Os grandes agressores
foram considerados, por exemplo, os leitores de MP3 e as discotecas.
De referir a novidade que são os leitores de MP3, recordistas
de vendas em todo o mundo, que são apresentados com as seguintes
singulares características: “com baterias que aguentam
longos períodos sem serem recarregadas e de armazenarem uma quantidade
infindável de músicas. Os utilizadores são encorajados
a nunca se separarem dos seus aparelhos e a ouvi-los durante quase todo
o dia” (DN, 22/03/06). Como entre parêntises, talvez
seja possível conjecturar que nesta forma de surdez possa existir
uma intencionalidade que escapa ao sujeito – a provocação
da surdez como defesa contra o excesso de ruído exterior.
A outra surdez é aquela que, na minha opinião, é a
principal surdez visada pela «indústria cultural» – é a
surdez do significante, como se pode observar pelo tipo de utilidade
que se imprimem em aparelhos como o leitor de MP3, onde um espaço
para o silêncio e para a “falta” de ruído é colocado
quase do lado da transgressão.
Essa sonoridade constante, ininterrupta e repetitiva que encontramos
nos dias de hoje, o ruído, partilha com o canto de sereia materno
o facto de não ter qualquer pontuação em si que
instaure o limite para o momento de concluir, precisamente porque também
não comporta um tempo para compreender. Imprime um reino de igualdade
onde qualquer pontuação dificilmente provoca a emergência
da diferença, visto que se dilui na igualdade ruidosa. Não
convoca uma anterioridade nem uma posterioridade, apenas subsiste numa
continuidade onde o sujeito desliza sem se saber situar, numa continuidade
sem as referências simbólicas de um passado que não
cessa de repetir-se num presente sem qualquer significação,
diga-se, fálica, numa continuidade que tão somente sobrevive
no gozo da surdez do significante e que se prolonga num momento
pulsional que se pode designar como o instante do ouvir.
Convém assinalar que o ruído não é o canto
de sereia, mas a repetição massificada da sua fórmula.
Isso está bem patente, por exemplo, na indústria musical,
no fenómeno repetitivo de fórmulas musicais “que
entram facilmente no ouvido”, como se diz no senso comum, fórmulas
essas que estão presentes em toda a «indústria cultural»,
na literatura ou no cinema, a título de exemplo. O que essas fórmulas
vêm a revelar, acima de tudo, é a massificação
de uma cultura para a qual não seja necessário um grande
esforço de juízo crítico, fórmulas cuja repetição
garantem, a priori, recordes de vendas e de lucros.
Pode-se ver bem a posição contra-corrente em que o psicanalista
está colocado ao pretender fazer existir um lugar ao silêncio.
E o que deseja o analista com o seu silêncio, ou seja, que inaudito
pretende ele que o sujeito possa escutar de si mesmo?
Comecemos por reflectir sobre o que poderá ser ouvir o inaudito
que o ruído procura abolir.
Se retornarmos à questão do auditor, que considerei como
um lugar de juízo crítico e de responsabilidade no qual
o sujeito assume uma intenção numa fala como resposta à fala
do Outro, poderemos dizer que ouvir o inaudito no silêncio é também
uma forma de ouvir a voz do sujeito crítico de Kant, é ouvir
a liberdade dos pensamentos, é responsabilizar-se pela consequências
e pela angústia que implica a liberdade de pensar, é alienar
o seu ser num pensar e num decidir sobre um agir.
E é aqui que o ruído, enquanto parte da “máquina
capitalista”, constitui-se como sintoma, um ruído com o
qual o sujeito não sabe o que fazer, a não ser gozar, mas
também do qual não lhe é “permitido” se
libertar. Digamos agora, que o que é promovido no ruído
como gozo da surdez do significante, é a “paralisia
da crítica“ (Marcuse, 1973, pág. 13) que Marcuse
denunciou, é, direi, a promoção do gozo da surdez
crítica, onde o importante é o conduzir a um gozar
desprovido de exercício discriminatório sobre os objectos
de consumo, isto porque, por um lado, pode colocar entraves ao “mercado”,
e por outro lado, porque angustia o sujeito. Mas para isso existe a psiquiatria
e a psicologia “científica”, para colocar o sujeito
de volta no caminho “acrítico” do qual não é conveniente
ele sair.
A actividade crítica que é promovida está distante
de ser, na sua generalidade, uma atitude crítica genuína,
na medida em que serve aos próprios propósitos da ideologia
consumista. Se recorrermos à diferenciação entre
o pensamento e pseudo-pensamento, poderemos constatar que a promoção
do pseudo-pensamento é o que constitui a mola da actividade crítica
na massificação cultural, na medida em que o (pseudo)pensamento
se produz, forçosamente, a partir do que é dado-para-o-pensamento,
no fenómeno da moda organizador do laço social entre consumidores.
E é aqui que, parece-me, a psicanálise surge como a carta
fora dos novos baralhos, na inutilidade com que confronta a lógica
de mercado, no abrir de um hiato que instala o inútil no sujeito,
isto porque, o inútil passa, sem dúvida, por um espaço
interior de questionamento do sujeito sobre si próprio e sobre
a existência em que está inserido e do qual o seu sintoma é um
reflexo. Ora, um sujeito que pensa, que se interroga para além
do que é conveniente e do que está de certa forma instituido, é um
sujeito inútil, não produz riqueza nem é consumidor,
pelo menos durante o tempo que reflecte sobre a sua miserável
existência. Como diz o sábio adágio popular, tempo é dinheiro.
Marginal a essa lógica, o sujeito, que em psicanálise é o
sujeito do insconsciente, hoje é um inutil. Ele adoece, deprime,
faz exigências, falta ao trabalho, ele pensa, etc. Não é sem
razão que a industrialização moderna passa cada
vez mais pela «automação», pela substituição
do homem pela máquina.
Pergunto-me – quando Lacan afirmou que “era realmente
o verbo que estava no começo, e vivemos em sua criação,
mas é a acção do nosso espírito que dá a
continuidade a essa criação, renovando-a sempre” (Lacan,
1966, pág. 273), estava ele ciente de que o discurso que designou
como o discurso capitalista, visaria, de tal forma, a acção
desses mesmos espíritos com o propósito de almejar neles
a abolição do sujeito crítico de Kant e do sujeito
neurótico de Freud?
É neste enquadramento que Dany-Robert Dufour apresenta a sua
proposta, de que os propósitos do capitalismo e do neo-liberalismo
passam pela obliteração do simbólico e pela produção
de um sujeito inédito, pós-moderno, um sujeito sem referências
simbólicas e com uma educação privilegiada para
se inserir na sociedade consumista. Esta é a nova forma de escravidão,
a forclusão do sujeito do inconsciente que referi no início
do texto, o que permite um olhar para o ponto de charneira onde a democracia
e o capitalismo copulam. O que é melhor do que a democracia para
o capitalismo e para o que é sua proposta de sujeito a-crítico
e volátil a qualquer tipo de discurso?
Como não ver o ruído, do qual todo a publicidade e marketing
televisivo que as crianças consomem desde a mais tenra idade,
faz parte, como uma «disciplina» imprescindível da
educação desses filhos da era do capitalismo, de uma educação
cujo único propósito é instaurar uma Hilflosigkeit (desamparo)
capitalista, uma devoração consumista conjugada a uma pseudo-liberdade,
uma liberdade que outorga o imperativo de se consumir tudo aquilo que
se apresenta como um semblante do desejo, e mais, a liberdade de se reclamar
pelo direito a esse consumo, que tão facilmente é confundida
com a liberdade de expressão.
Ora, os grandes obstáculos para as pretensões do capitalismo
são as resistências do sujeito kantiano e freudiano. De
que vale esse sujeito numa lógica de consumo? Kant dá-nos
uma preciosa ajuda para discernir entre o que é o sujeito do Outro
e o sujeito do capitalismo: “No reino dos fins, tudo tem ou
um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço,
pode pôr-se em vez dela qualquer outra como equivalente; mas quando
uma coisa está acima de todo o preço, e portanto não
permite equivalente, então tem ela dignidade.” (Kant,
1995, págs. 71/72)
Para concluir, direi que também o inconsciente é uma forma
de ruído, na medida em que é um discurso não-reconhecido,
que insiste sem ser ouvido, como é patente no caso do sintoma.
Talvez por isso seja curioso o facto de que ao se tentar forcluí-lo,
através do “interdito” contemporâneo que pesa
sobre o recalcamento e sobre a “função crítica”,
ele retorne no real cada vez mais barulhento e ensurdecedor, que ele
retorne sob heteróclitas formas, como é o caso, por exemplo,
do death, trash ou doom (referências a variações
do estilo musical metal). Lacan precisa isso mesmo com muita
acuidade ao afirmar que “o que é recusado na ordem simbólica
ressurge no real” (Lacan, 1985, pág. 22). O factor
de péssimo prognóstico neste retorno, é que o que
retorna no real retorna como real e não como alucinação.
Esperemos, desta forma, que o capitalismo ao nos tentar vender os nossos
sonhos não acabe por concretizá-los como os nossos piores
pesadelos.
Resta-me, por fim, responder à pergunta que deixei em aberto
sobre o desejo do analista – o inaudito que o analista pretende
que o sujeito escute por si mesmo, é a escuta das verdades inconscientes
que jazem no interior do que é o seu próprio ruído,
a escuta da sua dignidade de sujeito desejante e dividido, escuta essa
que é cada vez mais difícil para ele de suportar nos tempos
que correm.
Lisboa, 6 de Junho de 2006.
BIBLIOGRAFIA
Derrida, Jacques. (1997). De um tom apocalíptico adoptado
há pouco em Filosofia. Lisboa: Vega.
Foucault, Michel. (1997). A Ordem do Discurso. Lisboa: Relógio
d’Água Editores.
Foucault, Michel. (1986). O pensamento do exterior. Lisboa:
Fim de Século.
Kant, E. (1995). Fundamentação da metafísica
dos costumes. Porto: Porto Editora.
Kojeve, Alexandre. (2002). Introdução à leitura
de Hegel. Rio de Janeiro: Contraponto Editora.
Lacan, Jacques. (1966). Função e campo da fala e da linguagem
em psicanálise in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor.
Lacan, Jacques. (1985). Livro 3 – As psicoses. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Lacan, Jacques. (1992). Livro 17 – O Avesso da Psicanálise. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Marcuse, Herbert. (1973). A ideologia da sociedade industrial. O
homem unidimensional. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
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