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Foi na pintura e no desenho e, em menor escala, noutras artes gráficas que Erich Kahn trabalhou e nos deu a conhecer o seu desassossego. Mas também na escrita. Centenas de cadernos (de que só se conhecem 199), rabiscados ao sabor das idas e vindas do dia, das meditações e até do seu trabalho de pintor, espelham pelos significantes utilizados, pelas metáforas e pelos desenhos, um espírito que se busca e se trabalha numa solidão total e assumida. Há também as suas cartas a Joyce Parker, descrita por um seu amigo de exílio: “música, poeta e artista visual talentosa mas instável, que ficava de cama por longos períodos; (E.K.) cuidou dela com grande compaixão e paciência e acabou por casar com ela”. Ao lê-las vemos que funcionam na sua economia mental como as cartas de Freud a Fliess, como uma verdadeira auto-análise. Tal como para o inventor da psicanálise, a compreensão da mente humana parece ser o seu desejo último e não se afastar nem um milímetro desse desejo, parece ser a base da sua ética. Falta ao pintor a ambição de afirmação que sobrou ao psicanalista: ao contrário de Freud, Kahn parece fugir o sucesso. Os caminhos ou as “técnicas”, como ambos dizem, também são distintas. Ambos escrevem muito, mas para Sigmund Freud o instrumento é a psicanálise e para Eric Kahn a pintura. Quanto ao lado neuro-técnico do assunto: é necessário desligar-se do trabalho que se está a fazer. Lamento não conseguir descrevê-lo exactamente. Esta cisão em dois, uma metade dirigindo, planeando e serenamente observando a outra que calmamente pinta os seus temas sensuais sem intervenção ou responsabilidade, é, claro, ligeiramente exagerada, mas fundamentalmente correcta no meu caso. Até que ponto pode ser aplicado a outros, não sei. Ou as reflexões técnicas sobre as cores na sua relação com o sujeito pintor ou sobre a luz “pura”ainda que correndo o risco de cegar. As cores são como as emoções (que representam, pode dizer-se com segurança) difíceis de manejar. Mal manobradas, viram-se, como as emoções, contra o seu próprio Amo (ou escravo). O seu talento está em virarem-se para dentro matando-se mutuamente. Só podem ser trabalhadas emocionalmente – temperado, frio, quente, claro, escuro. Não há moral quanto às cores. (...) Aguarelas são o inferno para meu gosto. Se tiveres que as usar, usa-as musicalmente, isto é, como música. (...) Há limites à claridade que dá o seu brilho, por contraste, aos tons apagados. Limitar-se a uma paleta escovada, facilita. Junta cores sem premeditação e põe-as sobre o papel, verás quais ficam bem juntas e quais não, descobrirás os seus valores e poderás seleccioná-las antes de começar a pintar.” Ou, Investi muito tempo e dinheiro aqui, na melhoria da iluminação; comprei uma lâmpada de luz natural e transformei um guarda-sol num reflector após circunstâncias inacreditáveis de experimentação. Tem uma cor de clarão azul de relâmpago e sob a sua influência pode-se apanhar uma depressão, mas à parte isso é mesmo fantástica – excepto no facto de eu estar com receio de que ela leve à cegueira completa em poucos meses e à insanidade. Mas é luz do dia. Nestes escritos, que me atreveria a dizer de uma época e de suas gerações, encontramos a mesma preocupação e a mesma metodologia ou técnica que usa Freud. Mas foi sobre os seus sonhos que me pediram para escrever. Ou seja, de que outra forma a psicanálise poderia esclarecer o pintor aos que visitam a sua exposição. Encorajado por Heinz Westmann, seu analista nos inícios dos anos cinquenta, E.K., nessa época, encheu de sonhos os seus cadernos. Westmann é tido por um discípulo de Karl Yung. Mas isso não parece influenciar E. K, que também neste campo se mantém mais freudiano. Não só por atribuir uma importância contínua nas suas cartas aos temas e ao conflito edipianos, como sobretudo na forma como já vimos que se implica pessoalmente em qualquer análise da mente, do seu trabalho e provavelmente dos seus sonhos. Na forma de escrever por associação livre. Para ele não se trata de analisar as coisas e os assuntos com base nos arquétipos universais yungianos, mas de teimar no conhecimento de si próprio através da análise do seu acto de pintar ou de escrever. Empurro a sinopse como uma carroça de lama, palavra a palavra, frase a frase, contra toda a espécie de imagináveis dificuldades, as palavras apagando-se lentamente sob as minhas mãos, falhas de memória assim que me sento para escrever até que, pela calada, (a escrita) ganha uma espécie de forma, pelo menos a primeira letra. Ainda que, tal como em Freud, encontremos nas suas cartas à mulher uma capacidade de ironia e de relação saudável com o quotidiano: De manhã cedo, enquanto está tudo agradável e quente, dou-me ao luxo de longas abluções, com água quente e fria, escova, água-de-colónia, sabão com cheiro a limão e tudo o mais. As janelas estão abertas e o vento empurra o pivete todo para a vizinhança. Mas apesar de eu ter mudado a casa de banho do gato para o esgoto geral, continua a cheirar mal, devem ser os gatinhos. Assim, é na busca de si através a sua obra e na aceitação do sofrimento e dos sintomas dolorosos hipocondríacos que surge o sujeito pintor/escritor. Que nos seus desenhos “fáceis” parece brincar com a dor que sente quando, como técnica de se dizer, mistura palavra a palavra e cor a cor. Enfim, como Freud, E.K. sabe manter activo e sem concessão o seu desejo, mas ser simultaneamente exigente e compreensivo – no duplo sentido da palavra – para com a dor de Joyce e de outros. Que tenhas que te sentir abalada pela teoria, é evidentemente absurdo porque será que é uma questão de vida ou de morte? É apenas uma especulação, uma pequena tentativa; se tiver êxito, óptimo, se vier a ter sucesso, não é um desastre terrível; se toda a gente misturasse um insucesso com a sua intimidade e com o seu sentimento de inferioridade e de culpa inculcada pelos pais e reagisse executando a sua auto-sentença de morte, não ficaria ninguém, ou pelo menos nenhum dos que ousam agir... Procuremos assim ler os seus sonhos a partir da pequena amostra a que tivemos acesso. Como fazê-lo se não se trata de lhe aplicar arquétipos que nada nos ensinariam sobre E.K. ele próprio, mas sim de procurar, pelas associações do próprio, se existissem, a interpretação adequada ao sonhador, o qual já não pode guiar-nos. Temos apenas uma solução, a de tratá-los como se fossem – e de certa forma são-no – os fantasmas do pintor (em alemão, inglês e espanhol, phantasie, fantasy e fantasia). No sentido freudiano, trata-se de cenas, cenários antigos na vida pessoal, que são a elaboração inconsciente de cenas reais, cenário que continua sempre a desenrolar-se, não numa repetição da cena, mas como se o presente do passado pudesse apresentar-se ainda como presente. Ou, conforme a estrutura do título do texto freudiano princeps sobre o fantasma, Uma criança está a ser batida. Embora possa referir-se a uma cena real e universal (a chamada cena primitiva, por exemplo), o fantasma é próprio e reenvia, em cada um de nós para a história própria tal como a mente infantil ainda não verbal a elaborou e encenou para seu uso e que nos aparece como o nosso texto particular, funcionando como cenário possível para o nosso desejo. Esta utilização do sonho como esconderijo inconsciente do fantasma e do significante é de certa forma sugerida pelo próprio E.K. quando comenta um dos seus sonhos: O cenário é surpreendente – Não consigo lembrar-me de ter alguma vez estado nos escritórios da Kulturbund (Liga cultural) e só me lembro do seu teatro. Ora ao escrever o sonho, E.K. falara da Free German League of Culture, em Londres, mas é a Kulturbund que ele associa no seu comentário. Esta associação entre os dois significantes (o significante inglês, língua do sonho e da sua narração, a Liga da Cultura da Alemanha Livre e o significante alemão, Kulturbund), liga-o – é caso de o dizer – ao seu passado alemão, a infância, a mãe e a irmã morta num campo, o seu próprio internamento, a língua materna. Língua na qual se formula o interdito do incesto, língua da cena primitiva (afinal mais ouvida que vista), a língua que disponibiliza os significantes que ligam e estruturam as pulsões construindo o inconsciente na criança e o seu fantasma primordial. A descrição freudiana do sonho assemelha-se em tudo à do fantasma. Assim, experiência singular e irreproduzível, fazemos sonhos como fazemos experiências reais diversas, os sonhos acontecem ao sonhador como acontecem as coisas da realidade. Se o conteúdo é irreal, o acto de sonhar é real. Trata-se de um acontecimento que tendo feito irrupção na passividade do ser adormecido, convence o sonhador ao acordar de que algo se passou nele, de que ele não tem explicação nem teve a iniciativa e de que só pode falar com a distância já com que conta algo da realidade. Trata-se de uma retirada do investimento de todas as representações de objecto bloqueando assim o sistema que, no acordado, liga o seu corpo vivo e o mundo ambiente; ou seja, o sonho substitui a acção, é incompatível com ela e dedica-se a suprir a sua indigência. Apenas tivemos acesso ao relato de 17 sonhos. Mas a amostra parece confirmar o que diz o seu apresentador (?): nenhum deles é um sonho feliz. São sonhos de angústia que, directa ou indirectamente através de símbolos (a ponte quebrada, o Vesúvio, a Espanha levantina...), reenviam para terrores de infância (a mãe odiada, a irmã, a criada megera, a sexualidade e o gozo perverso polimorfo...) e para o horror do holocausto (os nazis, o comboio, a morte que os assassinos calem e as testemunhas hesitam em ignorar, o código, a falta de alimentos, o terror...). Eis um ponto que se mostra especialmente interessante: que, de entre as prováveis centenas de sonhos redigidos por E.K., estas sete pequenas descrições escolhidas talvez por acaso, dêem claramente a dimensão da organização inconsciente: simultaneamente dizem e abafam o escândalo, “explain and hush up”. O horror do holocausto, o que nele é indizível, reside exactamente no gozo imbricado na violência. e no terror, gozo incompreensível mas a que nenhum ser humano escapa na sua infância e onde se origina a força determinante do fantasma e do significante. Para a imaginação infantil precoce (do infans, que não tem fala), os monstros (os adultos), a cena primitiva com os seus gritos e gemidos escutados na noite, criam um cenário simultaneamente de fruição e de horror que jaz profundamente recalcado e que a pessoa não pode recuperar enquanto tal. Mas que vamos elaborando à medida do crescimento e da vida, modificando em cenários imagináveis, pensáveis, possíveis de dizer. A arte – e creio que E.K. era um artista, pese embora o não ter sido ou não se ter deixado reconhecer – é o trabalho daqueles que não hesitam em mergulhar nos seus fantasmas primevos utilizando os rituais permitidos pelos seus instrumentos e as suas técnicas. Porque o terror por si não assusta ninguém É o retorno da lembrança do gozo imbricado no terror que dá a dimensão do horror indizível. |