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"Paredes de la Medina" (2005), Abdel Mohcine Nakari (cortesía del artista)

 


A psicanálise, uma ciência diferente das outras

Fernando Belo

1. Foi em 1969, e nisto a memória me não falha, que li fascinado Traumdeutung, na versão espanhola que Freud revira – estudante de medicina, aprendeu espanhol para ler o D. Quichote, explicou. Era o meu baptismo na matéria, o livro que tinha 70 anos deu-se-me como se fosse novinho em folha. Gostaria de saber qual a reacção dum jovem de hoje que o leia, virgem de doutrina e comentários, se tem a mesma sensação de frescura que eu tive. O próprio autor terá dito que um livro como aquele só se escreve um numa vida humana. Não posso dizer que um leitor só lê um livro assim na sua vida, que felizmente tenho lido bastantes livros fascinantes, mas certamente que não há outro texto capaz de fazer descobrir o continente dos sonhos como, de maneira tão didáctica, passo a passo, sonho a sonho, Freud vai propondo uma maneira intelectualmente totalmente inédita de abordar um dos fenómenos mais estranhos da vida humana – ainda hoje me espanta (como o da linguagem aliás também, mas este não é hoje o assunto). O que vos proponho é tentar avaliar a possível cientificidade dessa abordagem, que há autores que a negam, mesmo gostando do livro, como K. Popper, ou até sendo psicanalistas, como Claude Le Guen1. Fá-lo-ei de forma limitada, porque não me é possível propor o conceito fenomenológico de cientificidade que está aqui subjacente e que daria cabimento mais completo a esta avaliação.

A neurofisiologia, ciência do cérebro que não do discurso

2. A objecção, senão mais corrente, hoje mais séria à cientificidade da psicanálise vem, julgo, da neurologia que pretende para si, em exclusivo, o lugar da ciência do cérebro. No que releva da sua anatomia, fisiologia e embriologia, em seus métodos de abordagem, tal pretensão não sofre contestação. Não pretenderei contrapor-lhe uma abordagem do que se chama a ‘mente’, a ‘psique’, termos de que duvido como sucedâneos da ‘alma’ e da sua separação dum ‘corpo’, já que justamente a psicanálise é uma das mais fortes objecções a tal dualismo greco-cristiano-europeu. Contrapor-lhe-ei, sim, o discurso: que sabe dele o neurologista pelos seus métodos, por exemplo com os seus écrans ou com as ondas dos electro-encéfalo-gramas ? Das regras das línguas que só em cérebros se jogam, mas a eles vêm de fora, de outros? Poderá ele sequer saber que lingua está um seu paciente falando, ou pensando? Mesmo para saber se sonha, não tem M. Jouvet, por exemplo, que o acordar e lhe perguntar: estava a sonhar? Com quê? De maneira equivalente, aliás, qualquer médico terá que perguntar ao paciente onde lhe dói, de que espécie de dor se queixa, sem que as suas aparelhagens sofisticadas e formas de análises químicas possam substituir-se a esse testemunho. O que terá sem dúvida que ver com a especificidade dos neurónios entre as duas centenas de tipos de células dos vertebrados: formarem uma rêde cuja propriedade consiste em afectarem-se uns aos outros, mormente a partir dos órgãos perceptivos. Há aqui uma irreductibilidade metodológica (que aliás poderá servir de argumento ao dualismo evocado, contra o qual não creio se possa responder apodicticamente, mas apenas por uma espécie de decisão axiomática, se assim se pode dizer).

Uma semiótica experimental do discurso neurótico na sua relação à sexualidade

3. Se permitirem, a um profano, caracterizar as ciências médicas, à diferença das biologias, como a) um saber teórico e experimental de tipo biológico, químico e físico, b) que se exerce numa relação terapêutica, isto é dual, de singular a singular, c) a pedido do paciente que se queixa de certos sintomas, d) essa relação devendo durar todo o tempo do tratamento até à cura, até que os sintomas desapareçam, é fácil ao tal profano concluir que apenas no ponto a) a psicanálise se distingue das outras especialidades, ou seja no ponto das metodologias, cuja irreductibilidade acusámos. Se compararmos as pretensões do médico Freud, no Esboço duma psicologia científica de 1895, com a Interpretação dos sonhos de cinco anos mais tarde, parece óbvio o abandono das preocupações de tipo neurológico - de busca de localização anatómica cerebral ou de fisiologia dos neurónios que Ramon y Cajal descobrira 5 anos antes - das instâncias de que se vai ocupar: esse abandono manifesta que Freud tem em conta esta irreductibilidade metodológica como condição da instalação do paradigma psicanalítico. É claro que há um outro ponto de discussão, mas desse o profano não sabe dizer : há curas, os sintomas desaparecem ? Quem pode sobre isso ter uma palavra segura ? A dos pacientes não será suficiente, porque testemunha só do seu caso, a dos não praticantes enferma de ser exterior ao paradigma : em bom rigor kuhniano, apenas os próprios praticantes, os psicanalistas, terão conhecimento suficiente, teórico e prático, para de tal poderem discutir entre si. 

4. Mas esse abandono da neurologia não implica uma ruptura total com o saber de tipo biológico, em que as questões energéticas têm lugar primordial. A grande descoberta de Freud – que creio continuar a ser, um século mais tarde, a razão de ser da prática psicanalítica, e só dela – foi, citando Ricœur, « o acesso à energética apenas pela via da interpretação », ou ainda « o carácter híbrido da psicanálise », foi a da relação intrínseca do discurso dos humanos com a sexualidade. É justamente o que, se há curas, permite colocar o estatuto da psicanálise entre as ciências médicas : o duma semiótica experimental do discurso neurótico em relação à energia sexual humana no seu laço à lei social. Semiótica paradoxal, em comparação com as dos contos populares ou doutras narrativas, ou com as semióticas poéticas : sendo uma ciência da linguagem, não se ocupa todavia das estruturas linguísticas, mas apenas dos sintomas neuróticos que só se encontram justamente no contexto da interpretação duma relação dual terapêutica, na explicitação da memória latente do paciente (dos seus sonhos manifestos, por exemplo) através da sua livre associação de ideias, em direcção aos pressupostos mais profundos do seu percurso histórico singular. Semiótica paradoxal ainda, porque fazendo-se, não sobre um discurso já dito ou escrito, como as outras, mas sobre o discurso ‘enquanto se faz’ na longa duração da terapia, mas também que muda pelo efeito dessa mesma terapia, que visa essa mudança, o desaparecimento dos sintomas e do sofrimento. Trata-se portanto duma semiótica experimental, a chamada experiência analítica, que em princípio a cura deve poder testar : « a libertação dum ser humano, escreveu Freud, dos seus sintomas neuróticos, inibições e anomalias caracteriais 2» . Este carácter experimental é de tal maneira primordial que nada no discurso psicanalítico tem valor científico fora desta relação dual terapêutica, o que não deverá ter equivalente nas outras ciências médicas e seus métodos laboratoriais.

As resistências como índice de ‘real’

5. Uma das objecções possíveis à cientificidade (à objectividade, como se diz) desta semiótica tem a ver com o facto de ela se exercer sobre as associações livres do paciente, portanto sobre a sua subjectividade mais acentuada. Com efeito, dizem-se aí muitos disparates, coisas incongruentes, sem sentido. Ora, em vez de se ofuscar, o terapeuta encoraja-o : « diga tudo o que lhe vier à cabeça, mesmo que lhe pareça idiota, chocante, indecente, sem relação com o que quer que seja ; não me dissimule nada ». Encoraja-o pois a evitar a vigilância da consciência (razão, ética, conveniências) nesse desfile de ideias libertadas. Se há assim suspensão dum certo aspecto do subjectivo do paciente, trata-se no entanto do que ele tem de ‘social’, de ‘comum’ com os outros : a associação de ideias será ainda mais ‘subjectiva’, singular. Mas mais automática também, quase mecânica, como um rio fora das barragens, melhor entregue às leis hidráulicas do movimento dos fluidos que se possam jogar no próprio desfile. Cheio de figuras, deslizes, choques inesperados, eis no entanto que o terapeuta vê surgirem correlações que se repetem aqui e ali, que desenham contornos, configurações, nesse magma de ideias ; e essas repetições revelam-se com frequência no bordo de certas paragens do discurso, de resistências a dizer que se manifestam por esquecimentos, lapsos ou outros actos falhados, intervenções súbitas da consciência vigilante que se auto-censura, silêncios, desmentidos, risos, choros, negações, etc. Isto é, sintomas energéticos (diferenças de sentido e diferenças de força indissociavelmente) que estabelecem uma clivagem, uma margem, um limite que não se pode passar, uma fronteira fractural, digamos, entre o que se diz e o que não chega ao dizer. Além dessa fronteira encontram-se os nós discursivos escondidos que manifestavam os sintomas neuróticos que levaram a pedir a terapia. Esta, o fim da interpretação, consistirá neste lento avançar do jogo livre das associações em ordem a que esses nós cheguem à relação explícita possível com o discurso corrente do paciente. Dialógica e experimental, esta semiótica dum discurso no seu fazer-se deverá servir à interpretação do analista mas também à cura.

6. Ora, é nestas repetições e resistências diversas que a sexualidade se manifesta como sexualidade censurada, interdita, tingida muitas vezes de agressividade, sexualidade incestuosa e de ciúmes correlativos : isto é, ela manifesta-se como ligada à lei social. Censurada, não apenas em relação ao analista, mas antes de mais e sobretudo em relação à consciência vigilante do sujeito, que se ofusca com aquelas revelações e não quer crer nelas. Digamos que é justamente a ‘subjectividade’ livre do sujeito que é contrariada por esses sintomas falando e trabalhando nele a partir de alhures. Algo mexe e resiste, permanecendo ‘autónomo’ da consciência, algo de real ; esse algo que se joga nele, ele não o reconhece como seu, como por vezes nos sucede com a experiência de extranheza de certos sonhos : como é que eu pude sonhar isto ? Que o paciente resista primeiro, seja surpreendido por esse íntimo de si muito estrangeiro a si, que ele se alivie no fim dos seus sintomas neuróticos, que as suas dores desapareçam por este trabalho-palavra dum real estranho vindo dele, que não se dá senão ao trabalho de interpretação do analista sem que o paciente saiba como é que aquilo chegou a um certo fim, eis o que torna plausível um estatuto de ciência médica à psicanálise, é certo que não como as outras.

7. Esta semiótica experimental dos discursos neuróticos nas suas relações à sexualidade ligada à lei social pode assim distinguir, como o seu inventor fará vinte anos mais tarde, três instâncias discursivas : a que se tece em redor do ‘eu’ que fala (Ego, com uma zona inconsciente à volta), a que deseja, pulsiona, além do que ‘eu’ crê querer e desejar (Id, a líbido recalcada) e a que resiste a estes desejos e pulsões, também além do que ‘eu’ quer (Super-ego, os interditos morais, o ideal, parcialmente também inconsciente). Sobre o lugar da sexualidade na psicanálise, um argumento de conveniência, exterior à psicanálise e acrescentando-lhe alguma verosimelhança, é o da sua invenção precoce pela evolução, se se põem em contraste as espécies mais evoluídas (aves e mamíferos) com as espécies assexuadas, como certos vermes ou a hidra da água doce (cissiparidade e outros processos), que não deixam cadáveres nem conhecem filiação, isto é indivíduos completamente distintos daqueles donde são originados. Ao inventar a se­xualidade, excessiva e pulsional, a evolução inventou também progressivamente  quer o par fêma / macho, quer o nascimento e a morte dos indivíduos, quer ainda a permanência em vida dos progenitores em simultaneidade com os seus rebentos, e portanto a possibilidade da lei, da aprendizagem. Não há que nos admirarmos que estes motivos apareçam como centrais nas interpretações psicanalíticas.

Pertinência e dissimulação

8. E já agora, um segundo argumento de conveniência, também independente da psicanálise, mas que lhe esclarece um aspecto importante, o que se pode chamar o seu laboratório, que sem ele não há ciência. Recolhi-o dum texto muito lindo e curto de F. Flahault, discutindo a proposta duma lógica da conversa do filósofo americano P. Grice3. Observa ele que em qualquer conversa, seja qual for o número de participantes, só há um fio da palavra, só um pode falar de cada vez como condição de que os outros escutem. Ora, esta estrutura implica que cada um, para tomar a palavra, seja socialmente obrigado a mostrar que tem o direito de o fazer, isto é, tem que provar a quem escuta que o que ele diz é pertinente para a conversa. O que tem uma segunda implicação : não poderá dizer o que lhe vier espontaneamente à cabeça, tem que aprender a criticar-se previamente de si para si, tem que aprender a dissimular, a pensar duas vezes antes de falar, a elaborar estratégias eventualmente, etc. Ora, como esta situação se apresenta a cada um desde miúdos - de quem os adultos se riem, que corrigem, etc. -, isto implica que não é só a sexualidade, também a linguagem está desde o início ligada à lei, que nos impõe uma espécie de axioma pessoal de pertinência, para evitarmos ser considerados estúpidos, ou loucos. Lei que nos ensina a transgredi-la, pois que, se por um lado uma das suas regras é que não se pode mentir, por outro lado só se pode ser pertinente dissimulando. E se é certo que a mentira é por este mecanismo que se forja, também o é a capacidade de se guardar segredo, seu ou de outrem, a de pensar, de fazer ficção, que se forja a vida interior, como se dizia no calão católico da minha juventude.

9. Porque é que isto é um argumento de conveniência da psicanálise ? Porque justamente dá uma luz antropológica sobre a injunção psicanalítica acima referida : « diga tudo o que lhe vier à cabeça, mesmo que lhe pareça idiota, chocante, indecente, sem relação com o que quer que seja ; não me dissimule nada ». Não seja pertinente, não me esconda nada, quer dizer ‘largue a sua dimensão social’, venha para um laboratório, aqui deitado e relaxado, o mais perto possível da posição do sono e do sonho. Que confiança imensa assim se pede.

Somos por vezes loucos durante a noite

10. Todas as noites sonhamos várias vezes, mas isso permanece um fenómeno tão extraordinário para qualquer neurologia ou psicologia ou filosofia que haverá que o considerar um pouco, se se quer saber da cientificidade ‘não normal’ da psicanálise que pela interpretação deles começou. Acontece por vezes que, ao acordarmos, esfregamos os olhos dizendo : ‘ah !, estou aqui, no meu quarto, estás aí, és a minha mulher, sou professo, moro nesta casa…’. Este alívio corresponde à recuperação de algumas marcas fundamentais da nossa identidade : estado civil, ofício e local de trabalho, morada, sei lá. Estas marcas perdem-se em certos sonhos, passados alhures, noutros tempos e sítios, com outras gentes, mas que não correspondem sem mais ao nosso passado, visto que há misturas, amálgamas, condensações e deslocamentos em linguagem técnica, repetições de cenas que nunca tiveram lugar (quando sonho que me falta ainda passar um exame do liceu). Há portanto regressão no tempo, para o passado, mas para um passado que nunca foi presente, que nunca aconteceu nem passou, que sucede em sonho pela primeira vez como se fosse muitas vezes repetida. Sou sempre ‘eu’ no sonho, mas não sou exactamente ‘eu’ e muitas vezes no sonho não estranho essa diferença de identidade, não me espanto com as gentes desconhecidas, espantosas, que nele frequento lado a lado (e se me espanto, no sonho, é índice do que Freud chamou « elaboração secundária », sem interesse nas associações de ideias).

11. Um outro aspecto de grande espanto no sonho, é que é ele e não eu que tem a iniciativa, que se me impõe, não sou senão um dos comparsas, por vezes reduzido ao papel de espectador, desenvolve-se segundo uma lógica de encenação ou figuração que me escapa, juntamente com as condensações e deslocamentos, uma lógica que não é a minha quando estou acordado. Esta ‘iniciativa’ manifesta-se também na força incisiva das cenas oníricas, ainda que gentes ou gestos sejam muitas vezes confusos, imagens fortes, sem nenhuma semelhança com o que, acordados, chamamos recordação ou imaginação. Se esta nitidez incisiva das imagens me acontecesse em estado de vigília, eu seria alucinado, louco : Moreau de Tours (1855) disse que « a loucura é o sonho do homem acordado », mas no sonho sou por vezes mais louco do que qualquer louco acordado. Ora, ele vem-me, esse sonho louco, quando me recolho em mim, deixo os outros e o mundo, os nossos usos e o nosso aqui e agora comum, quando deixo mesmo a minha intimidade consciente, os meus pensamentos e sentimentos, os meus projectos, as minhas vontades, a minha ética, os meus segredos. Estas estranhas gentes do ‘meu’ sonho são-me portanto mais íntimas a mim do que a minha intimidade mais próxima de mim, em que me reconheço como ‘eu próprio’, como diferente dos outros. Outros habitam em mim ‘antes’ de mim ? Posso aliás dizer o ‘meu’ sonho ? Ou sou eu pelo contrário que lhe pertenço ? Mas como na noite de amanhã será um outro sonho ainda, de que pertença fugaz se trataria ?

12. Esta é a grande questão que a psicanálise aborda, que ela procura compreender. Há que esperar que não seja susceptível de relevar do mesmo tipo de ‘cientificidade’ do que a da física de Newton, a neurofisiologia de Jouvet ou a lin­guística de Gross. A questão a colocar é : fora de Freud, há alguma teoria consistente do sonho, seja ‘científica’, seja ‘filosófica’ ? Alguma teoria consistente desta dupla lógica ? Nunca ouvi dizer.

Oscilação e identidade

13. Há uma lógica do sonho e uma lógica do estado de vigília, mas aquela assinala-se nos lapsos e outros fenómenos da psicopatologia da vida quotidiana, e ainda nas anedotas, assim como os sonhos são também trabalhados pela lógica vigilante, na tal elaboração secundária que procura atenuar os excessos da outra e evitar que o sonhador acorde. O que significa que não há oposição cortante entre as duas lógicas, mas uma oscilação.

14. ‘Eu sonhei que… P’, diz ‘eu’ acordado, em que P é uma narrativa de várias sequências e personagens, entre as quais aquele que diz ‘eu’. É uma narrativa mais ou menos confusa, bizarra, que ‘eu’ tem mais ou menos dificuldade em ‘contar’, em explicitar que ‘quem’ se tratava, ‘aonde’, e por aí fora. ‘Eu’ que conta sabe no entanto que foi aquele que diz ‘sonhei que… P’ quem sonhou : há portanto uma certa identidade entre ‘eu (que estou) acordado’, vigil (eu-vigil) e ‘eu (que) sonhei’ (eu-sonho). Mas entre eu-sonho e e eu-vigil há também uma tradução : da cena sonhada à cena contada, dum cenário imaginário a um cenário narrativo, das ‘imagens’ às ‘palavas’. Esta tradução – na qual justamente o ‘eu-vigil’ hesita, resiste, gagueja – impede que a identificação entre ‘eu-sonho’ e ‘eu-vigil’ seja completa, total. Nem ‘um só eu’, nem ‘dois ‘eus’, nem um ‘nós’, mas uma oscilação irreductível, já que cada um dos ‘eu’ é e não é o outro. (…)

Desligar o que permanece ligado algures

15. Outra maneira de dizer o que Freud nos ensinou : como é que é possível a aprendizagem, de tal maneira que nós façamos espontaneamente uma data de coisas socialmente necessárias e que as façamos à maneira da nossa tribo ? Ter vergonha e corar, por exemplo. Como é que a nossa tribo nos fez para nós agirmos assim, livremen te, por nós mesmos, sem nos sentirmos obrigados ? Se partirmos das pulsões de origem biológica, dos impulsos mais ou menos fortes, desestabilizadores, que nos sucedem de vez em quando, como é que elas se estabilizam, de maneira a não ficarmos seus joguetes, por um lado, e por outro a aproveitar a sua energia para outros fins, acima da biologia, mais ‘sublimes’ ? Como é que há sublimação ? Que ciência haverá para estas questões além da psicanálise ? Mas não será possível articular o que de Freud aprendemos com uma antropologia tribal elementar, de maneira a, por um lado, evitarmos o dualismo na descrição evocativa e, por outro, a compreendermos também que este tenha vingado tão fortemente na nossa tradição ?

16. Não sendo sem dúvida necessário recordar a teoria freudiana das pulsões, é importante sublinhar como a distinção, na primeira tópica, entre dois tipos, umas de autoconservação, do tipo da fome ou da sêde, e as outras ditas sexuais, insistia em que estas na época infantil se escoravam naquelas. (…) A sucção do seio e o seu prazer, depois da boca ter chorado muito é uma cena simultaneamente fanstasmática e real, indiscernivelmente biológica e antropológica, já diferente em relação ao ventre-pele do recém-nascido. É o desmame, remarcando mais duramente e suscitando, numa espécie de resistência, a sucção do dedo, que impõe o deslocamento do ‘fantasma’ de prazer (fantasma : a boca no seio materno) em relação ao gesto ‘real’ da mãe de dar o seio. O que a repetição deste gesto tinha ligado (como zona erógena) é desligado (substituição pelo alimento com colher) : o dedo ou a chucha em suplemento do seio permanecem ligados fantasmaticamente a este, agora sem a dependência da mãe, no que diz respeito ao prazer (a dependência continuando, é claro, no que diz respeito à satisfação das pulsões de fome e sede). Foi assim aberto um outro lugar para a pulsão, que a pode tornar fantasmática, isto é, sem fonte orgânica e não precisando de outrem para se aliviar, cujo prazer poderá vir a deslocar-se, do dedo a outros gestos, o de falar, o de beijar… « Pulsões parciais », diz Freud, como estas, e outras sem dúvida também, serão retomadas na puberdade pelas pulsões genitais, com fonte orgânica mas pluralidade de desejos ‘sem órgão’ e com alvos diversos de que farão o seu manancial, enxertando-se neles « après-coup » (Nachträglichkeit) de tal maneira que, nos sonhos e nas associações de ideias no divã psicanalítico, a sexualidade genital (ou outra talvez) dir-se-á como sendo infantil, originária. Foi nisso que, com efeito, ela se tornou, « après-coup ». « A irreductibilidade do ‘atrasadamente’ (à-retardement) é sem dúvida a descoberta de Freud », escreveu o filósofo francês Jacques Derrida4. É o motivo da regressão : vai-se e vem-se no nosso passado, como nos sonhos. O que foi outrora recalcado atrai o que, posterior, se aproxima demais, faz-lhe ocupar um lugar aberto muito tempo antes, o ‘posterior’ vem-se colocar em posição arcaica. Para o profano que eu sou, é o ponto da grande sedução, senão inveja, do psicanalista, que saiba apanhar a boleia do sonho e ir, com o paciente, a esse passado que nunca foi presente, ajudar a desfazer os nós que doem, como um cirurgião do psiquismo. O ‘après-coup’, o atrasadamente, é esta maneira extraordinária de se construir um edifício oscilante que, à medida que cresce em altura e ganha peso, reforça em simultâneo os seus fundamentos arcaicos. À maneira duma árvore, digamos, cujas raízes se enterram à medida que o tronco e os ramos sobem para o alto céu. Sublimação ou entropia para as alturas, possibilidade inaudita de regressão para o arcaico, eis a grande amplidão da nossa condição oscilante.

17 (…). Se olharmos do lado da antropologia do sistema familiar, é a integração progressiva neste (andar, mexer, falar) que arranca a criança ao seu comércio primitivo com a mãe, de quem começou por ser um órgão a mais no útero : esta integração repete, mais lentamente, a primeira separação, a do parto, esta palavra nossa dizendo o que se aparta de ser ‘parte’ e aparece. Crescer é aparecer, fazer prova de pertinência e de competência. Em terminologia heideggeriana, vai deixando de ser um ser-da-mãe para vir a ser um ser-no-mundo, a aprender-lhe os usos, cada um que aprende o tornando outro, com a autonomia da habilidade e do talento, e mais se separando da mãe de origem, ganhando o nome que lhe deram como seu nome próprio. É este processo inexorável que interdita o incesto, que instaura a lei social. É ele que produz o recalcamento, lentamente, não duma só vez, que irá ganhando força, como, dizia eu, a árvore que cresce e com ela as raizes. Alguns incidentes familiares deste processo prestam-se a uma configuração edipiana, as suas marcas remarcar-se-ão por outros acontecimentos – sobredeterminações, dizia Freud, que tornam possível a regressão -, voltarão nos ditos e não ditos no divã, com o ar dum passado penosamente vivido. Dito de outra maneira : este processo de aprendizagem implica dele mesmo enigmaticamente o esquecimento (quase) absoluto daqueles de quem se aprende, de que não ficam senão vestígios : é este esquecimento que a consciência em análise ressente como um recalcamento muito doloroso, como se fôra arrancado a ferros.

18. Não há pulsão ‘pura’, puramente interior, marcada na sua definição por aquilo que Freud chamou, desajeitadamente aliás, ‘objecto’, instância irreductivelmente ‘exterior’. As pulsões sucedem-se através da memória das dores / prazeres anteriores, pedem sempre já a satisfação que só virá mais tarde : dor, pede a repetição da sequência (dor)-satisfação que a apague. Ora, de cada vez que a dor é assim aliviada como prazer pela intervenção do outro (pessoa, gesto, coisa, ‘o objecto’ de Freud), este inscreve-se, é ligado à memória dos que já tinham aliviado ; a próxima pulsão terá pois um outro a mais no caminho que ela repete, a repetição será modificada por um acrescento, com as condensações e deslocamentos correlativos. Este processo de repetição é assim singularizante, uma vez que altera o mesmo, fá-lo tornar-se sempre outro, num processo de iterabilidade em que o outro tanto me ‘altera’ como me faz dizer ‘eu’. É este deslocamento que impede que a repetição seja estrita, é ele que a altera : a condensação liga os ‘objectos’ outros, o deslocamento desliga-os mas guardando-os ligados, fantasmaticamente, retiradamente, inconscientemente. A dor e o seu prazer diferido, a realidade e o fantasma erótico, inscrevem (fora-dentro) diferenças sem as dissociar : a inscrição retém, reserva, memoriza, liga, e difere, desliga, desloca, relança, dinamiza. « Délier ce qui avait été fortement lié, tressé, c’est détresser, angoisser », diz lindamente uma filósofa espanhola (desligar o que tinha sido fortemente ligado, trançado, é destrançar, provocar ‘détresse’, angustiar)5. A pulsão segundo Freud, deseja a sua anulação como tensão ou dor, quer voltar ao seu ponto zero, à sua morte ; a diferança do prazer impede este retorno mortal, deslocando-o para outro gesto ou coisa : cada retorno é obrigado a um ‘detorno’, a um desvio, deslocamento, outra destinação : impedir a morte, relançar a vida, é isso a repetição, a iterabilidade. Mas como é o efeito do outro que impede e relança, que difere o mesmo, ele tanto impede a submissão total do interior ao outro exterior quanto a coincidência pura do interior consigo mesmo ; a pureza, tanto interior como exterior, seria sempre a morte, degeneração autista num caso, alienação total no outro.

19. O bébé não tem interioridade ainda, começa por ser uma cena com a mãe, torna-se depois uma cena com os outros no sistema familiar a que é ligado. O processo evocado é o duma desligação progressiva, de pequenos passos para a autonomia mas em que esta é doação dos outros – aprendizagem – que se apagam mas sem separação total, porque o que se desliga permanece ligado - de forma retirada, apagada, inconsciente - como atestam os fantasmas dos sonhos. A desligação da mãe é feita pela entrada a pouco e pouco no sistema dos usos familiares (e escolares), no mundo heideggeriano, segundo um duplo movimento de pedir e impedir : incita a buscar, a aspirar, a querer, por um lado, entrava, impede, interdita, por outro. Uma vez que é a integração nos usos quotidianos que lhe proibe o incesto (a ‘mulher’ a quem ele estava tão ligado, que era ‘tudo’ para ele, no sistema não é senão a ‘sua mãe’ e de alguns outros, casada com um terceiro), é aonde ele aprende a tornar-se autónomo fazendo como os outros mas no seu lugar único, singularizando-se pelo seu talento, a sua idiosincrasia (palavra grega que diz as pequenas manias de cada um), a maneira que lhe é própria (idion) de pertencer à mistura (krasia) com outros (sun), a sua maneira de responder pelo seu nome no sistema. Partindo (para a escola, para o liceu, para o primeiro emprego, casar-se), tratar-se-á sempre de ganhos de autonomia em relação aos outros desses diversos sistemas de usos, de desligações que permanecem ligadas de forma retirada, não consciente. O que Freud chama Ego, a parte do Id que é modificada por influência directa do mundo exterior6 é constituída pelos vestígios dos outros, condensadas, amalgamadas, por vezes invertidas, sempre esquecidas : « […] o carácter do Ego resultaria desses abandonos sucessivos de objectos sexuais 7», dessas desligações dos outros, cujos rastos se tornam fantasmáticos, sexualizados. As três instâncias que Freud retém, o Id, o Ego e o Super-ego, não podem ser ligadas entre si (e elas não são outra coisa senão essas ligações) senão por permanecerem estruturalmente ligadas, de forma retirada, esquecida, aos sistemas de usos (familiar, antes de mais), à heteronomia que lhe deu tornar-se o que ele é. Nomeadamente lhe deu tornar-se alguém capaz de decidir, capaz de pôr e de opor : por exemplo essencial, alguém em quem são opostos interior e exterior, que opõe o que eu quero ao que me resiste ou ameaça, os outros, o mundo, a realidade fora de mim. Contra a nossa experiência mais espontânea, esta oposição interior / exterior é construída, derivada. Esta é uma das lições fundamentais da psicanálise, de que o próprio Freud aliás não se terá claramente apercebido : não estou certo de que seja possível sabê-lo por outra via.

Retiro e regulação do aleatório

20. Um último ponto, antes da conclusão sobre a estranha cientificidade desta estranhíssima semiótica experimental. O jogo de oscilações é-nos estrutural, pedido pela exigência de retoma energética dos organismos, mas é perigoso para eles, coloca-lhes problemas de identidade. Por outro lado, ameaça-os da possibilidade de encontros inesperados com outros, o que exige que se esteja mais ou menos seguro de si. A ameaça é pro-vocação :  a pulsão do outro que me diz ‘vem !’, contagia a minha instabilidade pulsional. A teoria do Id-Ego-Superego de Freud busca dar conta quer da viabilidade destas oscilações quer da necessidade do seu enquadramento. Por um lado, o recalcamento, nó do Id, exercido pela lei social, pelo interdito do incesto, retém o excesso de líbido, de energia sexual, diferindo-a, relançando-a pela promessa dum destino de adulto8, que tem que passar pela aprendizagem dos usos tribais, das regras que organizam os encontros sociais. Regras, interditos, promoção de ideais, parece ser o que Freud entendia por Superego, « formado não à imagem dos pais, escreveu, mas à imagem do Superego deles 9». Quanto ao Ego, dir-se-ia que é o que sobra entre ambos, como dizer ?, conjunto estruturado de vestígios apagados dos outros, o que oscila entre eles, com defesas, como se diz, por um lado, fragilidades oferecidas talvez também, do outro lado. Mais rígidas nums, mais maleáveis noutros, ou nos mesmos em outras idades da vida, como dizer aquilo que é justamente a incrível variabilidade dos humanos, o que por vezes nos surpreende, nos comove, doutras vezes nos mete medo ?

21. No ram-ram dos dias, essas oscilações habituais são mais ou menos regradas, mais ou menos espontâneas, sem que haja que pensar nelas a maior parte do tempo, o aleatório que nelas há sendo tido em conta sem grande dificuldade : o Id-Ego-Superego de cada um foi feito para isso, singularmente, pelos sistemas de usos tribais. Pequenas coisas se passam, mais ou menos desapercebidas, que voltarão de noite, em sonho, acordaram velhos desejos enterrados que se ‘realizam’ na cena onírica. Mas era uma vez… Uma vez sucedeu que estes elementos da véspera, como lhes chama Freud, jogaram durante o próprio dia, sem esperar a noite, abraçaram logo o mundo arcaico, alumiaram uma paixão, ‘realizaram-se na realidade’, na realidade também arcaica de tal mulher, de tal homem, acontecimento, encontro inesperado. Ou outra espécie de acontecimento, uma situação de risco social em que haja que decidir depressa, a leitura dum livro que transtorna. Diante de tais situações, a estruturoscilação pode mostrar-se, quer muito fraca, quer muito rígida, e talvez dê no mesmo, na catástrofe. Ou então haver metamorfose, amor louco, derivação profissional, conversão de vida, sei lá eu. Pode o id-recalcamento ter sido aliviado pelo outro, ou reforçado, o supergo reformulado, tornado mais ligeiro, é para isso que se faz psicanálise, não é ? ou o ego oscilar melhor, ou… ou… Se a psicanálise tem sentido, por certo que é na medida em que consegue intervir nestas engrenagens de oscilação que permitem que estejamos abertos ao acaso sem perda de identidade. Mais ainda, são estas estruturoscilantes que nos enviam, nos destinam ao acaso, à possibilidade do desconhecido, destinam-nos à errância : destinerrância, disse algures Derrida, forjando uma palavra que impede de opor determinação e indeterminação, destino e liberdade. Recalcamento e superego são um duplo retiro (apagamento, inconsciente), condição da regulação do aleatório entre mim e outrem.

22. O sonho para que serve? Talvez não sirva para nada de estritamente biológico, a crer no desânimo de M. Jouvet após toda uma vida a tentar encontrar uma resposta neurológica a esta questão; em linguagem filosófica, ele não seria senão o ser no mundo vazio de mundo, o filme do ‘fora do mundo’ que não pode senão vir à noite, quando o mundo desaparece. Talvez seja um aviso: lembrar-me-ia que não sei nunca de forma segura quem sou nem o que posso, que posso sempre tornar-me louco, ser derrubado por uma ameaça mais forte do que eu, que sou finito, mortal, possuído por mortos no mais íntimo de mim; diria a quem trabalha em filosofia que a filosofia dos sujeitos e dos objectos não foi nunca senão uma maneira de nos defender dessas ameaças, nunca tendo conseguido dar conta nem do sonho, nem da loucura, nem do sexo, nem da morte. Não serviriam para grande coisa, os sonhos, não fôra um médico brincalhão ter-se dado ao trabalho de tentar decifrá-los e de encontrar neles a via real para o inconsciente, de aprender a lidar com eles, com os seus restos e fantasmas. Poder-se-ia então perceber talvez que o sonho, experiência efémera da loucura adormecida que nos pouparia da loucura acordada, seria uma espécie de descarga reguladora das relações da véspera com outrem, descarga que se faria por regressão na estrutura psíquica, esses acontecimentos da véspera conseguindo encontrar um lugar – mais ou menos antigo – para abraçar essa estrutura, a angústia eventual sublinhando as suas rigidezes : a terapia poderá então segui-los, aos sonhos, nessa viagem às avessas – o que se chama tranfert – no passado arcaico que nunca foi presente, tornar-lhe mais maleáveis os nós que doiem. Ela chegaria ao real do paciente.

Uma ciência travêssa

23. Chamaremos ciência a esta arte tão delicada e difícil ? Compreendo que haja psicanalistas como Le Guen para o recusarem, estando mais perto da poesia, da literatura, do que do discurso das essências sem tempo nem lugar. Se o fosse, não seria como as outras, sê-lo-ia dentro de limites fortes. Um deles, o de só ser praticável com gente escolarizada suficientemente para ser capaz de discorrer sobre a sua subjectividade. O seu laboratório sendo por um lado, o divã em que faz deitar os seus pacientes, por outro a injunção de tudo dizer, sensato ou não, de não esconder nada – o que só em situação de terapia tem sentido, pior do que ficar de boca aberta diante do dentista ou de se deitar quase nu numa mesa de operações -, é esse laboratório que torna possível a produção duma « neurose de transfert, escreveu Freud, […] que cria um domínio intermediário entre a doença e a vida real, domínio através do qual se efectua a passagem de uma à outra ; o estado assim instaurado tomou todos os aspectos duma doença artificial acessível às nossas intervenções 10», sublinhando eu esta ‘doença artificial’ como se fosse o seu correlato técnico, do fabrico dum verdadeiro laboratório.

24. Um outro limite é que não se pode falar em psicanálise de ‘espécies’, como as espécies biológicas, como também o são as sociedades das respectivas ciências e as línguas dos linguistas. Mas pode-se ao invés perceber que o seu domínio operatório as atravessa, as espécies destas ciências, o discurso da linguística, o interdito de incesto das sociedades, a sexualidade e a alimentação da biologia, e atravessa-as autonomamente, sem delas depender e ilustrando fenómenos que a essas ciências escapam, numa espécie de irreductibilidade entre uma e as outras, como estas outras também têm entre elas. Com a consequência de a psicanálise lhes fornecer possibilidades de inteligibilidade dos seus próprios domínios, se os respectivos cientistas forem capazes de lhe darem atenção, como foi o caso de Lévi-Strauss em antropologia (As estruturas elementares do parentesco) e de Norbert Elias em história (O processo civilizacional). Também as teorias literárias dela colheram maneiras de ler fecundas, como em filosofia o autor que uma ou outra vez citei, Jacques Derrida. Eu acrescentaria, com a cautela do profano, que a psicanálise é uma das várias ciências da linguagem (com a linguística, semiótica, pragmática), a única que opera sobre o discurso no seu fazer-se, sendo o seu domínio específico os fenómenos dos discursos ou textos que relevam da sua energética, dos jogos de forças que as outras ciências da linguagem não sabem perceber e que Freud articulou, pela experiência semiótica dos sonhos, confissões e resistências dos pacientes, com a sexualidade, a lei e a sublimação. E enfim, além do espantoso esclarecimento do que somos e não sabíamos, de que tentei evocar alguns que sempre e ainda me provocam espanto, acrescentando-se a outros espantos doutros lados, que discurso ou disciplina, desde os Gregos até hoje, nos deu uma abordagem cientificamente relevante dos sonhos ?

25. A psicanálise seria uma ciência que atravessa as outras; uma travessa, segundo o Littré, é « uma rua mais curta para a grande avenida, levando a um lugar aonde a avenida não leva ». Quem anda pelas avenidas não liga às travessas e também os das travessas não vão às avenidas, que ainda hoje passados mais de cem anos sobre esse livro fascinante que é a Traumdeutung, este alheamento permanece com algumas excepções. Mas os psicanalistas deverão serem capazes de o perceber melhor do que ninguém, se pensarem em alguns parentes semânticos de ‘travessa’. Diz-se ‘travêssa’ uma criança turbulenta, espertalhona, maliciosa, que gosta de se meter com as outras, de que as outras muitas vezes não gostam, de quem desconfiam. ‘Atravessado’, de alguém um pouco tonto, um tanto louco, que se pôe de lado, que se olha de través. Ciência dos excessos do psiquismo, entre os sonhos, os loucos e outros artistas, parece normal que as outras ciências a suspeitem de ser travêssa e atravessada, de ter o seu grão de loucura.

Notas:

1 "La psychanalyse : une science?", in La psycha­na­lyse, une science?     VIIèmes Rencontres psychanalytiques d'Aix-en-Provence, 1988, Les Belles Lettres, 1989

2 "L'analyse avec fin et l'analyse sans fin", 1937, cit. in F. Delbary, La Psychana­lyse: une antholo­gie, 1. Les concepts fonda­mentaux, Pockett, 1996, p. 168)..

3 "Le fonctionnement de la parole. Remarques à partir des maximes de Grice", Communications, nº 30, La Conversation, 1979, Seuil, pp. 73-79.

4 L’écriture et la difference, Seuil, 1967, p. 303.

5 Mercedes Allendesalazar, Thérèse d’Avila, l’image au feminine, Seuil, 2002, cit. por T. Joaquim.

6 Malaise dans la culture, P.U.F., 1995, p. 9.

7 Freud, “Le Moi, le Sur-Moi et l’Idéal du Moi”, 1968b, p. 198.

8 Où il y a loi, il y a promesse: l'interdit ne peut pas empêcher le retour à la trans­gression, il ne peut qu'obliger à un détour.

9 Suite aux Leçons d'introduction à la Psychanalyse (1932), citado in Laplanche et Pontalis, 1967, p. 473..

10 "Remémoration, répétition, perlaboration", 1914 (cit. in I. Stengers, 1989, pp.183-4).

 

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